Uso prolongado de antibióticos pode aumentar riscos e favorecer resistência

Especialistas alertam que prolongar o tratamento sem orientação pode afetar a microbiota e aumentar a exposição a efeitos adversos.

Uso prolongado de antibióticos sem orientação pode aumentar efeitos adversos, alterar a microbiota e favorecer a resistência bacteriana.

Imagem: Ilustração/ Agência Fonte Exclusiva

O tempo de uso de um antibiótico não deve ser definido por conta própria. Mesmo quando os sintomas de uma infecção continuam causando preocupação, prolongar a medicação além do período indicado pelo profissional de saúde pode aumentar a exposição aos efeitos adversos e contribuir para um problema que preocupa autoridades de saúde em todo o mundo: a resistência bacteriana.

Os antibióticos são utilizados para combater bactérias responsáveis por infecções, mas sua ação também pode atingir parte dos microrganismos que vivem naturalmente no organismo. Essa alteração da microbiota pode reduzir mecanismos de proteção e favorecer a multiplicação de outros agentes, incluindo bactérias resistentes e fungos.

O corpo humano convive com bilhões de microrganismos presentes no intestino, na pele e nas mucosas. Em equilíbrio, essa comunidade exerce diferentes funções e ajuda a impedir a proliferação excessiva de determinados agentes.

Segundo a infectologista Raíssa Moraes, do Portal Afya, a escolha do antibiótico, da dose e do intervalo entre as administrações leva em consideração características individuais do paciente. Idade, peso, funcionamento dos rins e do fígado e outros medicamentos utilizados são alguns dos fatores que podem influenciar o tratamento.

A especialista explica que o objetivo é alcançar uma concentração suficiente do medicamento para combater a infecção, sem manter o paciente exposto ao antibiótico por mais tempo do que o necessário.

Tratamentos mais longos podem trazer mais efeitos adversos

Uma análise publicada em 2021 pelo American College of Physicians (ACP) apontou que, em algumas infecções comuns, prolongar o tratamento sem necessidade pode aumentar o risco de efeitos adversos sem oferecer benefícios adicionais.

Entre as possíveis complicações está a infecção por Clostridioides difficile, bactéria que pode provocar diarreia intensa e inflamação do intestino, conhecida como colite.

O ACP defende que, em determinadas situações, tratamentos mais curtos podem ser adotados quando estudos demonstram que eles apresentam eficácia semelhante à de terapias mais prolongadas.

A duração pode variar conforme a doença. Em algumas infecções, como determinados casos de pneumonia e infecção urinária, pesquisas já avaliaram a possibilidade de períodos menores de tratamento. Isso não significa, porém, que todos os pacientes devam utilizar antibióticos por menos tempo.

A duração adequada depende do diagnóstico, do microrganismo envolvido, da gravidade do quadro e das condições individuais do paciente.

Antibióticos também afetam a microbiota

Outro ponto de atenção é o impacto dos antibióticos sobre a microbiota. Ao reduzir determinadas populações de bactérias, o medicamento pode alterar temporariamente o equilíbrio entre os microrganismos que vivem no organismo.

O infectologista Eliack explica que a eliminação de parte dessas bactérias pode diminuir a competição entre diferentes espécies. Com menos concorrência, alguns microrganismos podem encontrar condições mais favoráveis para se multiplicar.

Esse processo também pode favorecer fungos, como os do gênero Candida, que normalmente podem estar presentes no organismo sem provocar problemas. Quando o equilíbrio da microbiota é alterado, entretanto, esses fungos podem se multiplicar excessivamente e causar infecções.

Exposição excessiva pode favorecer resistência

A resistência bacteriana é outra preocupação relacionada ao uso inadequado de antibióticos.

As bactérias possuem capacidade de adaptação. Quando são expostas aos medicamentos, algumas podem sobreviver por apresentarem mecanismos que dificultam a ação do antibiótico. A exposição repetida ou desnecessária pode aumentar a pressão seletiva sobre esses microrganismos.

Segundo Eliack, esse processo pode favorecer a seleção de bactérias resistentes. Caso elas provoquem uma nova infecção posteriormente, determinados antibióticos podem deixar de funcionar adequadamente, tornando o tratamento mais complexo.

É nesse contexto que surge o termo “superbactérias”, usado para descrever microrganismos que apresentam resistência a diferentes medicamentos.

Tempo de tratamento é definido para cada infecção

A duração de uma terapia com antibióticos não é estabelecida de forma aleatória. Os protocolos consideram evidências obtidas em estudos clínicos e características como o tipo de bactéria, o local da infecção, a gravidade do quadro e a resposta esperada ao medicamento.

Com o avanço das pesquisas, algumas recomendações médicas foram modificadas. Em determinadas infecções, estudos demonstraram que tratamentos mais curtos podem apresentar resultados semelhantes aos de terapias prolongadas, com menor exposição aos efeitos adversos.

Isso não significa que o paciente deva encurtar o tratamento por conta própria. A duração precisa seguir a avaliação do profissional responsável pelo caso.

Não aumente nem interrompa o antibiótico sem orientação

A recomendação geral é não modificar a dose, o intervalo ou a duração do tratamento sem conversar com o profissional de saúde.

Prolongar o uso porque os sintomas ainda estão presentes pode não ser a solução. Da mesma forma, interromper o medicamento antes do período recomendado também pode comprometer o tratamento.

O uso responsável dos antibióticos contribui para o controle adequado das infecções e ajuda a reduzir a pressão seletiva que favorece o surgimento de bactérias resistentes.

Além de proteger o paciente contra complicações desnecessárias, a utilização adequada desses medicamentos é considerada uma medida importante para preservar a eficácia dos antibióticos disponíveis no futuro.

*Da Agência Fonte Exclusiva.

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