Mola gestacional transforma sonho da maternidade em tratamento contra câncer raro

Doença provocada por uma fecundação anormal pode evoluir para neoplasia trofoblástica; atendimento especializado e controle do hormônio HCG aumentam as chances de cura.

Mulheres relatam perda gestacional e tratamento contra câncer após diagnóstico de mola gestacional. Acompanhamento especializado é fundamental para a cura.

Imagem: Reprodução/ Tomaz Silva/Agência Brasil

Em menos de um mês, a terapeuta ocupacional Daiana Nascimento passou da comemoração de uma gravidez aguardada para a confirmação de uma perda gestacional e o início de um tratamento contra o câncer.

Há cerca de dois anos, depois de um período de tentativas, ela descobriu que estava grávida. A expectativa, entretanto, mudou durante o primeiro ultrassom, quando os exames mostraram que a gestação não se desenvolvia de maneira normal.

Daiana foi diagnosticada com doença trofoblástica gestacional, conhecida como mola gestacional. A condição surge após uma alteração no processo de fecundação e provoca a formação irregular do tecido que daria origem à placenta.

A gestação precisou ser interrompida. Poucas semanas depois, a terapeuta recebeu uma nova notícia: as células anormais permaneceram no organismo e evoluíram para uma neoplasia trofoblástica gestacional, câncer originado no tecido placentário.

A sequência de diagnósticos obrigou Daiana a enfrentar, praticamente ao mesmo tempo, o luto pela gravidez e o medo provocado pela doença.

Como ocorre a mola gestacional

A mola gestacional é inicialmente considerada um tumor benigno. Em parte dos casos, porém, as células alteradas permanecem no útero e continuam se multiplicando, dando origem à forma maligna da doença.

Existem dois tipos principais de mola. Na forma parcial, um óvulo normal pode ser fecundado por dois espermatozoides ou por um espermatozoide cujo material genético foi duplicado.

Essa combinação resulta em uma placenta anormal e na formação de um embrião com alterações genéticas incompatíveis com a vida.

Na mola completa, o óvulo não possui material genético. Após a fecundação, ocorre apenas o crescimento de tecido placentário irregular, sem o desenvolvimento de um embrião.

Nos dois casos, é necessário interromper a gestação e retirar o material do útero. Sem atendimento adequado, a paciente pode apresentar sangramento, mudanças na pressão arterial e alterações no funcionamento da tireoide.

Doença pode evoluir para câncer

A progressão para a neoplasia trofoblástica ocorre quando as células da mola permanecem no útero ou invadem o tecido uterino.

Nos casos de mola parcial, menos de 5% das pacientes desenvolvem a forma maligna. Entre as mulheres com mola completa, a evolução para o câncer pode atingir uma em cada cinco.

Em situações mais graves, as células podem se espalhar para outras regiões do organismo. O pulmão é apontado como o principal local de ocorrência de metástases.

O professor de obstetrícia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Antônio Braga afirma que a incidência da doença é elevada no Brasil.

A condição pode atingir uma gestante a cada grupo de 200 a 400 mulheres no país. Nos Estados Unidos, a proporção é de aproximadamente um caso para cada mil grávidas. Na Inglaterra, a estimativa é de um diagnóstico a cada duas mil gestações.

As causas para a maior frequência entre brasileiras ainda não foram definidas. Fatores genéticos, imunológicos e alimentares estão entre as hipóteses investigadas.

Ambulatório da UFRJ é referência mundial

Antônio Braga coordena o Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, considerado um dos principais centros mundiais de atendimento e pesquisa sobre a condição.

A unidade integra a rede HU Brasil e recebe cerca de 80 pacientes por semana pelo Sistema Único de Saúde.

O serviço atende mulheres da capital, de outros municípios fluminenses e de diferentes estados. Aproximadamente 30% das pacientes possuem plano de saúde, mas procuram o ambulatório público devido ao nível de especialização da equipe.

De acordo com Antônio Braga, o tratamento em centros de referência pode ser decisivo para a sobrevivência. Levantamentos realizados pela equipe indicam que mulheres acompanhadas fora dessas unidades apresentam risco de morte entre dez e vinte vezes maior.

Diagnóstico costuma ocorrer no ultrassom

Muitas pacientes descobrem a mola gestacional durante o primeiro ultrassom, depois de confirmarem a gravidez por meio de exames de sangue ou urina.

Assim como Daiana, grande parte das mulheres nunca havia ouvido falar da doença antes de receber o diagnóstico.

Após a confirmação, o tecido irregular é retirado por aspiração uterina. O material coletado segue para análise, que permite identificar se a mola é parcial ou completa.

A retirada, contudo, não encerra os cuidados. A paciente precisa continuar realizando consultas e exames periódicos para verificar se todas as células foram eliminadas.

HCG funciona como marcador da doença

O monitoramento é feito principalmente por meio da dosagem do hormônio HCG, produzido durante a gravidez e também encontrado em níveis elevados nos casos de mola gestacional.

Depois da retirada do tecido, a quantidade do hormônio deve diminuir progressivamente até alcançar valores considerados normais.

Quando os níveis permanecem elevados, deixam de cair ou voltam a subir, existe a possibilidade de que as células anormais tenham continuado no organismo e evoluído para a neoplasia.

Antônio Braga explica que esse câncer possui uma característica particular: o diagnóstico pode ser confirmado pelo comportamento do HCG, sem necessidade de realização de uma biópsia.

Tratamento pode envolver quimioterapia

Quando ocorre a progressão para a forma maligna, o tratamento pode incluir sessões de quimioterapia. Com diagnóstico correto e acompanhamento especializado, a maioria das pacientes consegue alcançar a cura.

A retirada do útero não é necessária em todas as situações. A histerectomia costuma ser considerada conforme a idade, as condições clínicas e o desejo da mulher de ter filhos no futuro.

Depois do tratamento e do período de vigilância, muitas pacientes podem voltar a engravidar. Algumas realizam o pré-natal e o parto na própria Maternidade Escola.

Daiana concluiu a quimioterapia e apresenta níveis normalizados de HCG, resultado que indica a cura da doença.

Ela ainda precisa aguardar antes de tentar uma nova gestação. O intervalo é necessário porque uma gravidez voltaria a elevar o hormônio e poderia dificultar a identificação de uma eventual recidiva.

O desejo de ter filhos, porém, continua fazendo parte dos planos de Daiana e do marido, Lucas Felipe. Para o casal, o sonho foi adiado pelo tratamento, mas não abandonado.

Paciente enfrentou cirurgia e quimioterapia

A experiência de Mônica Rosa do Amaral Pelizari também começou após uma perda gestacional. Aos 45 anos, ela sofreu um abortamento espontâneo e recebeu o diagnóstico de mola gestacional.

Cerca de um mês depois, os exames confirmaram a evolução para o câncer de placenta.

Mônica já era mãe e enfrentava uma gestação em uma idade considerada limite. O diagnóstico da neoplasia fez com que o medo da doença se sobrepusesse ao próprio processo de luto.

O tratamento ocorreu entre 2018 e 2019 e incluiu cirurgia e quimioterapia. Com o apoio da família e da equipe médica, ela conseguiu concluir todas as etapas e foi considerada curada.

As irmãs acompanhavam as sessões usando lenços diferentes, transformando os momentos de tratamento em ocasiões mais leves.

Mesmo após a cura, Mônica permanece em acompanhamento e realiza consultas anuais para avaliar a saúde e verificar os níveis hormonais.

Acolhimento ajuda pacientes e familiares

Além da assistência médica, a Maternidade Escola oferece acompanhamento psicológico, apoio social e atividades de acolhimento, como musicoterapia.

A médica Gabriela Paiva afirma que as pacientes chegam fragilizadas tanto pelo diagnóstico quanto pela interrupção de uma gravidez cercada de expectativas.

A equipe reforça desde o início que a mola gestacional ocorre de forma inesperada e não é provocada por qualquer atitude ou culpa da paciente.

O contato com outras mulheres em tratamento também ajuda a reduzir a sensação de isolamento diante de uma condição pouco conhecida.

O impacto emocional se estende aos companheiros e familiares. Durante o tratamento de Daiana, Lucas Felipe buscou manter o equilíbrio para apoiá-la, mas percebeu que também precisava reconhecer e cuidar dos próprios sentimentos.

Segundo ele, oferecer suporte não significa esconder a dor. As pessoas próximas também precisam compreender como foram afetadas para conseguirem ajudar de maneira saudável.

Tratamento modifica rotina e renda

A doença também pode causar dificuldades financeiras e mudanças profundas na organização familiar.

Daiana precisou interromper o trabalho enquanto realizava consultas e sessões de quimioterapia. A retomada das atividades ocorreu gradualmente, começando por apenas um dia da semana.

Moradora de São Pedro da Aldeia, ela precisava percorrer cerca de 141 quilômetros até a capital para chegar à unidade especializada.

Inicialmente, utilizava o transporte médico disponibilizado pela prefeitura, mas cada deslocamento ocupava praticamente um dia inteiro. Posteriormente, descobriu que tinha direito à gratuidade nos ônibus intermunicipais, o que facilitou a continuidade do acompanhamento.

Como as pacientes permanecem sob vigilância por pelo menos seis meses, os deslocamentos frequentes podem se tornar cansativos e dispendiosos.

A equipe recomenda que as mulheres compareçam às consultas acompanhadas. Em alguns atendimentos, os profissionais precisam comunicar que o HCG não diminuiu como esperado e que a doença evoluiu para o câncer.

Diagnóstico precoce amplia chances de cura

A retirada adequada da mola, o controle periódico do HCG e o tratamento em uma unidade especializada são considerados fundamentais para evitar complicações.

O acompanhamento permite identificar rapidamente a permanência das células anormais e iniciar a quimioterapia quando necessário.

Mesmo após a perda gestacional e o impacto do diagnóstico de câncer, os relatos das pacientes mostram que a neoplasia trofoblástica pode ser tratada com sucesso.

Para mulheres que desejam ter filhos, a conclusão do tratamento e a normalização dos exames também podem abrir caminho para uma nova tentativa de gravidez, depois do período de segurança recomendado pela equipe médica.

*Da Agência Fonte Exclusiva

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