Escritores gaúchos repudiam falas racistas em premiação da Academia Rio-Grandense de Letras

Presidente disse que pioneirismo literário do estado se deve à imigração europeia, ao contrário do restante do país, que teria sido 'colonizado' por escravizados negros

Escritores gaúchos repudiam falas racistas em premiação da Academia Rio-Grandense de Letras

A escritora gaúcha Eliane Marques na Flip, em 2022 — Foto: Divulgação

Escritores gaúchos têm vindo a público para repudiar o discurso racista do presidente da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL), Airton Ortiz, proferido nesta quinta-feira (12), durante a entrega do prêmio da entidade.

Em sua fala, Ortiz disse que com frequência é perguntado por que o Parthenon Literário, fundado em Porto Alegre em 1868, foi criado décadas antes da Academia Brasileira de Letras, que é de 1901. Ele afirma que isso se deve à influência da imigração alemã e italiana, enquanto o resto do país teria sido “colonizado” por escravizados negros.

A afirmação causou revolta. A escritora Eliane Marques, uma mulher negra, que momentos antes havia sido premiada por seu romance “Louças de família” (Autêntica Contemporânea), pediu a palavra. Ela subiu ao palco acompanhada de outros vencedores da premiação e repudiou o discurso de Ortiz. “Eu peço a essa academia de letras uma retratação pública por escrito em razão de uma fala não apenas inadequada, mas racista, do senhor presidente”, afirmou.

Marques, cujo romance investiga a opressão racial sofrida por gerações de uma família negra, lembrou que o fundador da Academia Brasileira de Letras foi um escritor negro, Machado de Assis, e citou outros autores negros, inclusive gaúchos e contemporâneos, como Ronald Augusto, Luiz Maurício Azevedo e Fernanda Bastos.

“Como é que a branquitude não se levanta?”, questionou Marques, que no mês passado venceu o Prêmio São Paulo de Literatura também por “Louças de família”. “Por que é preciso uma pessoa negra pedir retratação em razão e uma fala racista? Eu não entendo isso. Os senhores premiaram uma mulher negra, um livro que fala de todo um trabalho da população negra na construção da sociedade e ao mesmo tempo ficam em silêncio diante de uma fala racista. Não era para os senhores se levantarem? Não era para a branquitude se levantar? Eu estou tremendo aqui. Me pediram para ter calma, mas não tem como ter calma. Como é que a branquitude ouve isso calada?”

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