O McDonald’s é a mais recente empresa a recuar de programas internos de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). A multinacional de fast-food anunciou que abandonará metas relacionadas à promoção de um ambiente de trabalho mais diverso e deixará de contribuir com pesquisas que avaliam níveis de representatividade.
A mudança não inclui a Arcos Dorados, empresa que opera a marca no Brasil e em outros 19 países da América Latina. Em nota, a companhia disse estar comprometida com a promoção de equipes de trabalho diversas e um ambiente de trabalho que estimula respeito, inclusão e igualdade de oportunidades.
As informações são do jornal O GLOBO, que procurou a sede americana da empresa, que enviou como resposta um documento sobre “compromissos com diversidade”, no qual menciona o cumprimento de metas como a paridade salarial entre gêneros e 30% dos líderes vindos de grupos sub-representados.
Empresas como Walmart, Nissan Motors e Harley Davidson já seguiram o mesmo caminho. Em novembro, o Walmart anunciou que não usará mais parâmetros de raça e gênero para selecionar contratos de fornecimento e reduziu treinamentos sobre equidade racial.
A Boeing também desmantelou seu departamento de DEI, que foi integrado a outro setor de recursos humanos, segundo a Bloomberg. Já a Harley Davidson eliminou sua divisão de DEI em abril passado, além de abandonar metas de gastos com empresas fornecedoras lideradas por minorias e reduzir treinamentos sobre temas sociais.
Segundo pesquisadores, esse movimento está relacionado à ascensão da extrema-direita mundialmente, alavancada pelo retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Suprema Corte dos EUA
Juliana Kaiser, professora do Laboratório de Responsabilidade Social e Sustentabilidade do Instituto de Economia da UFRJ (Lares) e fundadora da Trilhas de Impacto, diz que o movimento começou em julho de 2023, quando a Suprema Corte dos EUA vetou programas de admissão em universidades americanas com base na raça ou etnia dos candidatos.
Ricardo Sales, CEO da consultoria Mais Diversidade, diz que empresas americanas passaram a ser questionadas judicialmente sobre suas ações afirmativas.
—Desde o ano passado, passamos a ter empresas indo a público para firmar compromissos de não trabalhar o tema da diversidade, o que nunca tínhamos visto. Claro que deve haver repercussão no Brasil, mas estamos falando de um fenômeno mais circunscrito à sociedade americana.
Gabriela Agustini, fundadora e diretora executiva do Olabi, diz que programas de Diversidade, Equidade e Inclusão promovem inovação, conexão com diferentes públicos e maior capacidade de adaptação num mundo em transformação.
Estudos que mostram que times diversos geram soluções mais criativas e fortalecem a longevidade das empresas ao se alinharem às demandas contemporâneas de consumidores e stakeholders, diz Gabriela. Uma pesquisa da Accenture (2019) mostrou que organizações com normas sólidas de DEI têm cultura de inovação 600% maiores do que as menos diversas.
— O poder de inovação de uma empresa, ou seja, sua habilidade de se alinhar com possibilidades que ainda não estão mapeadas, tem relação direta com a diversidade. Quanto mais diversidade, mais rápida e eficiente é sua resposta numa sociedade em constante mudança.
Juliana e Gabriela avaliam que o retrocesso nos programas DEI pode estar relacionado à expectativa de algumas organizações de que conseguiriam retorno financeiro imediato, o que não acontece. De acordo com a professora da UFRJ, o movimento também está relacionado ao crescimento do conservadorismo mundialmente.
Karine Karam, professora de comportamento do consumidor e sócia da Markka Consultoria, acrescenta que, ao adotar DEI, as companhias também expõem seus problemas internos.
— Há marcas que têm outros problemas. Quando se voltam para programas de diversidade (sem olhar para problemas já colocados), se tornam um telhado de vidro.
Onda Conservadora
O pesquisador e fundador da EXO Consultoria, Joaquim Santini, afirma que, assim como buscaram vantagens ao se alinharem ao progressismo, as empresas agora estão aproveitando a onda do conservadorismo. Ele diz que o crescimento do negacionismo climático também está influenciando as decisões das empresas.
Recentemente, os bancos Morgan Stanley, Citigroup e Bank of America anunciaram a saída da Net-Zero Banking Alliance (NZBA), iniciativa destinada a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
— Antes, estavam apenas adotando uma moda. O negacionismo tem a ver com esse retrocesso. É um risco grande abandonar esses programas nesse momento —afirmou Santini.
Da Agência Fonte Exclusiva.
