Urnas revelam disputa por votos entre Campos, Macaé e cidades da região

Apuração permite mapear circulação do voto no Norte Fluminense e também traz sinais das disputas locais no Sul do Espírito Santo.

As urnas das Eleições 2026 deixaram um recado importante para as lideranças políticas do Norte Fluminense: uma base eleitoral forte dentro do município não foi suficiente para garantir, sozinha, uma cadeira na Câmara dos Deputados. A eleição proporcional mostrou um eleitorado pulverizado e candidatos obrigados a buscar votos além de seus redutos tradicionais.

Os resultados de Wladimir Garotinho (PL), em Campos dos Goytacazes, e Márcio Rezende (PSD), em Macaé, são dois exemplos desse movimento. Ambos foram eleitos deputados federais, mas construíram parte relevante de suas votações em outros municípios.

A comparação também mostra como o comportamento do eleitor muda entre uma eleição municipal, concentrada na disputa pela prefeitura, e uma eleição parlamentar, na qual dezenas de candidatos de diferentes regiões disputam simultaneamente o mesmo eleitorado.

Wladimir teve 55,4 mil votos em Campos

O desempenho de Wladimir chama atenção principalmente quando comparado à eleição municipal de 2024.

Naquele ano, ele foi reeleito prefeito de Campos no primeiro turno com 192.232 votos, correspondentes a 69,11% dos votos válidos. Em abril deste ano, deixou a prefeitura para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Na eleição deste domingo (4), Wladimir voltou a encontrar em Campos sua principal base eleitoral, mas em proporção bem diferente daquela registrada dois anos antes.

Foram 55.456 votos para deputado federal no município, segundo os dados da apuração apresentados durante o Direto da Redação, do Portal VIU!, em parceria com a ApuraData.

Quando esse número é comparado aos 192.232 votos da eleição para prefeito de 2024, os 55.456 representam aproximadamente 28,9%.

A comparação não significa que Wladimir tenha perdido mais de 70% de seu eleitorado. São eleições de naturezas distintas, com número de candidatos, dinâmica partidária e comportamento eleitoral diferentes. O dado, no entanto, dimensiona a dificuldade de converter uma votação municipal majoritária em votos para uma disputa proporcional estadual.

Votos de fora foram importantes para a eleição

Se dependesse exclusivamente dos 55.456 votos conquistados em Campos, Wladimir terminaria a eleição com uma votação muito inferior ao total alcançado em todo o estado.

O ex-prefeito foi eleito deputado federal com mais de 81 mil votos no Rio de Janeiro. Dados divulgados após a apuração apontam 81.775 votos, número que ainda pode sofrer pequenas diferenças conforme a atualização das bases de totalização.

Isso significa que aproximadamente 26 mil votos foram conquistados fora de Campos.

Macaé aparece nesse mapa. De acordo com os dados apresentados pelo ApuraData durante o programa, Wladimir recebeu 1.194 votos no município.

A distribuição mostra que Campos permaneceu como centro de sua votação, mas a entrada em outros municípios teve papel importante para ampliar o resultado estadual.

Márcio Rezende também precisou ultrapassar as fronteiras de Macaé

A mesma dinâmica aparece de forma ainda mais evidente na votação de Márcio Rezende.

Eleito deputado federal pelo PSD, Márcio recebeu 75.148 votos no estado. Em Macaé, seu principal reduto eleitoral, foram 33.585 votos. Em Campos, conquistou outros 4.688.

Isso significa que menos da metade de sua votação total veio de Macaé.

Dos 75.148 votos recebidos, 41.563 foram conquistados fora do município. Em termos percentuais, aproximadamente 44,7% vieram de Macaé e 55,3% de outras cidades.

O resultado evidencia a importância de uma campanha regionalizada. Mesmo sendo o candidato a deputado federal mais votado em Macaé, Márcio obteve mais votos somando os demais municípios do que dentro de sua própria base.

Campos recebeu candidatos de outras regiões

O fluxo eleitoral ocorreu nos dois sentidos.

Enquanto candidatos de Campos precisaram procurar votos fora do município, nomes ligados a outras cidades também entraram no eleitorado campista.

Os 4.688 votos de Márcio Rezende em Campos são um exemplo desse movimento.

É justamente nesse ponto que entram as articulações regionais, alianças partidárias e as chamadas “dobradinhas”, quando candidatos a deputado federal e estadual trabalham conjuntamente em determinados municípios.

O resultado mostra que as fronteiras municipais ficaram mais permeáveis na disputa parlamentar. O eleitor de Campos não necessariamente escolheu apenas candidatos campistas, assim como eleitores de Macaé, Rio das Ostras e outras cidades distribuíram seus votos entre candidatos de diferentes regiões.

Transferir votos é diferente de conquistar votos para si

A eleição também oferece elementos para outra discussão recorrente na política regional: a capacidade de transferência de votos.

Um prefeito pode conquistar uma votação elevada em sua própria eleição, mas isso não significa que conseguirá transferir integralmente esse eleitorado para outro candidato. Da mesma maneira, um político que deixa um cargo majoritário para disputar uma eleição proporcional não necessariamente repetirá a mesma votação.

No caso de Wladimir, a diferença entre os 192.232 votos recebidos para prefeito em 2024 e os 55.456 registrados para deputado em Campos em 2026 ilustra essa mudança de ambiente eleitoral.

Em 2024, o eleitor escolhia quem administraria Campos. Em 2026, havia uma extensa relação de candidatos a deputado federal disputando votos no município e em todo o estado.

Por isso, os números não podem ser tratados simplesmente como ganho ou perda de eleitorado. Eles precisam ser interpretados dentro das características de cada eleição.

Abstenção também entra na conta

Outro componente importante para compreender o resultado é a abstenção.

O número de eleitores que deixou de comparecer às urnas reduz o universo disponível para os candidatos e interfere diretamente nas comparações entre diferentes eleições.

A análise detalhada da abstenção, dos votos nominais e da distribuição dos candidatos por município permitirá identificar com maior precisão quanto do eleitorado tradicional das principais lideranças regionais permaneceu em suas bases e quanto migrou para outros nomes.

Esse mapa será especialmente importante em Campos, onde candidatos de diferentes regiões conseguiram penetrar em um dos maiores colégios eleitorais do interior fluminense.

Resultado abre uma nova disputa pelo eleitor regional

Com as urnas fechadas, começa outra etapa: entender onde cada candidato conquistou seus votos.

Os números indicam que o Norte Fluminense não funciona eleitoralmente como um conjunto de ilhas. Campos, Macaé, Rio das Ostras e municípios vizinhos formam um território no qual candidatos de diferentes cidades disputam o mesmo eleitor.

Para quem pretende concorrer novamente em 2028 ou 2030, a votação deste domingo funciona como um mapa. Ela revela onde existem bases consolidadas, onde adversários avançaram e quais municípios podem se tornar estratégicos nas próximas eleições.

Presidente Kennedy também dá sinal para 2028

Esse tipo de leitura não está restrito ao Rio de Janeiro.

No Sul do Espírito Santo, o resultado da eleição para governador em Presidente Kennedy também produziu um dado político relevante.

Lorenzo Pazolini (Republicanos) foi o candidato a governador mais votado no município, com 5.073 votos, equivalentes a 52,80% dos votos válidos. Ricardo Ferraço (MDB) recebeu 3.873 votos, ou 40,31%. Os números oficiais têm como origem os dados do TSE.

A diferença foi de 1.200 votos.

O resultado pode alimentar análises sobre a correlação de forças entre grupos locais, mas não permite, isoladamente, atribuir a votação de cada candidato a uma determinada liderança municipal. Eleições estaduais envolvem fatores partidários, ideológicos, regionais e pessoais que ultrapassam as alianças das prefeituras.

Ainda assim, a votação passa a integrar o conjunto de indicadores que os grupos políticos de Presidente Kennedy terão à disposição quando começarem a organizar a disputa municipal de 2028.

Em Cachoeiro, dado citado no programa precisa de correção

Há um ponto importante da análise feita durante o programa que precisa ser corrigido antes da publicação.

Ao contrário do que foi mencionado na transmissão, Lorenzo Pazolini não venceu Ricardo Ferraço em Cachoeiro de Itapemirim.

Com 100% das urnas apuradas, Ricardo Ferraço foi o candidato a governador mais votado no município, com 46,48% dos votos válidos.

Cachoeiro é governada por Theodorico Ferraço, pai de Ricardo. O Diário Oficial do Espírito Santo registra Theodorico como prefeito do município em 2026.

A correção é relevante porque modifica a interpretação política daquele resultado específico.

Urnas de 2026 começam a desenhar o tabuleiro de 2028

É cedo para transformar a eleição parlamentar e estadual de 2026 em uma previsão sobre as eleições municipais de 2028. Os cargos são diferentes, novas alianças serão construídas e o cenário político poderá mudar significativamente nos próximos dois anos.

Mas os resultados deste domingo fornecem aos partidos um retrato atualizado do eleitorado.

Em Campos e Macaé, fica evidente que candidatos competitivos precisaram ultrapassar seus limites municipais. Em Presidente Kennedy, a votação para governador oferece um novo indicador para a disputa entre grupos locais.

O mapa produzido pelas urnas, portanto, vai além dos nomes dos eleitos.

Ele mostra para onde os votos foram, quais candidatos conseguiram entrar em territórios adversários e até que ponto lideranças locais foram capazes de manter o eleitorado dentro de suas próprias bases.

Para a política regional, a eleição de 2026 terminou neste domingo. A leitura dos números, porém, está apenas começando.

*Da Agência Fonte Exclusiva.

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