PF marca depoimento de Jaques Wagner no inquérito sobre o Banco Master

Senador deverá ser ouvido em 7 de agosto sobre apartamento, transferências financeiras e suspeitas de atuação política favorável à instituição.

A Polícia Federal intimou Jaques Wagner para depor em 7 de agosto na investigação sobre suspeitas de vantagens relacionadas ao Banco Master.

Imagem: Reprodução/ Jefferson Rudy/Agência Senado

Documentos, mensagens e movimentações financeiras reunidos pela Polícia Federal serão apresentados ao senador Jaques Wagner durante um depoimento marcado para 7 de agosto.

O parlamentar do PT da Bahia será questionado sobre suspeitas de recebimento de vantagens relacionadas ao Banco Master e sobre uma possível atuação política favorável aos interesses da instituição.

A oitiva deverá ocorrer presencialmente na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Wagner foi intimado no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga operações financeiras atribuídas ao grupo comandado pelo empresário Daniel Vorcaro.

As suspeitas ainda estão em fase de apuração. O senador não foi condenado e afirma que não recebeu propina nem utilizou o mandato para favorecer o banco. Sua defesa também ressalta que ele não é réu nem foi denunciado pelos fatos investigados.

Depoimento deverá abordar diferentes operações

A Polícia Federal pretende confrontar Wagner com informações encontradas em materiais apreendidos durante fases anteriores da investigação, especialmente dispositivos e documentos vinculados ao empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.

Segundo a apuração, Lima mantinha uma relação próxima com o senador e teria participado da organização de benefícios destinados direta ou indiretamente ao núcleo familiar do parlamentar.

Entre os elementos mencionados na decisão que autorizou as medidas investigativas estão um apartamento avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões, transferências de R$ 3,5 milhões para uma empresa ligada à família, viagens em aeronaves privadas e ingressos para um espetáculo internacional.

Os investigadores procuram determinar se essas operações possuíam justificativas comerciais regulares ou se representavam vantagens concedidas em troca de influência política.

Imóvel em Salvador está no centro da investigação

Uma das principais linhas do inquérito envolve a unidade 1.702 de um empreendimento localizado no Horto Florestal, bairro valorizado de Salvador.

De acordo com os elementos apresentados pela PF, Wagner teria enviado a Augusto Lima informações sobre o apartamento, incluindo a unidade escolhida, o contato relacionado à negociação e o preço de R$ 2,45 milhões.

A compra teria sido formalizada por uma empresa ligada a estruturas financeiras investigadas na operação. Para a Polícia Federal, a utilização de terceiros pode indicar uma tentativa de ocultar quem seria o verdadeiro beneficiário do imóvel. Essa hipótese ainda precisa ser comprovada.

O senador reconheceu que conversou com Augusto Lima sobre a aquisição, mas apresentou uma explicação diferente. Segundo Wagner, pediu ao empresário que comprasse temporariamente o apartamento porque pretendia ajudar uma filha a adquirir o imóvel posteriormente.

O parlamentar afirmou que a intenção era recomprar a unidade depois da venda de outro apartamento pertencente à família ou por meio de financiamento. Também declarou que o imóvel investigado nunca integrou seu patrimônio.

PF analisa transferência de R$ 3,5 milhões

Outra frente envolve a BN Financeira, empresa que os investigadores associam ao entorno familiar de Jaques Wagner.

A decisão do Supremo Tribunal Federal registra que uma companhia vinculada a Augusto Lima transferiu R$ 3,5 milhões para a BN Financeira. A PF investiga se houve prestação efetiva de serviços capaz de justificar o pagamento.

Mensagens encontradas nos aparelhos apreendidos também mencionariam cobranças, notas fiscais, boletos e documentos que precisariam ser assinados.

Os investigadores trabalham com a hipótese de que estruturas empresariais possam ter sido utilizadas para conferir aparência regular a repasses feitos sem uma atividade comercial correspondente.

A existência da transferência, por si só, não comprova o cometimento de crime. A apuração terá de demonstrar a origem dos recursos, a finalidade do pagamento, os serviços eventualmente prestados e a relação dos valores com o senador.

Atuação no Senado também será examinada

O inquérito procura identificar se Wagner utilizou sua posição no Congresso para atender a interesses do Banco Master.

Entre os temas analisados estão discussões sobre crédito consignado, regras do Fundo Garantidor de Créditos e a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília.

A PF deverá questionar o senador sobre possíveis contatos com autoridades, dirigentes de instituições financeiras e integrantes do governo. Também poderá pedir explicações sobre propostas legislativas discutidas no período investigado.

Para caracterizar uma possível prática de corrupção, não basta demonstrar que o parlamentar manteve reuniões ou tratou de assuntos de interesse do setor financeiro. Será necessário estabelecer uma relação entre eventual vantagem recebida e um ato realizado ou prometido no exercício do mandato.

Wagner nega qualquer ligação entre as operações financeiras e sua atividade parlamentar.

Busca foi autorizada pelo STF

Jaques Wagner foi alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em junho. As medidas foram autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator do inquérito.

A operação cumpriu mandados em São Paulo, na Bahia e no Distrito Federal. Além do senador, gestores e empresários ligados ao Banco Master também foram alcançados pelas determinações judiciais.

O STF autorizou buscas e apreensões e aplicou restrições a atividades econômicas de empresas citadas na investigação. A decisão foi baseada em mensagens, documentos, comprovantes, registros societários e dados extraídos de aparelhos recolhidos em fases anteriores.

A autorização de uma busca significa que o Judiciário reconheceu a existência de elementos suficientes para justificar a diligência. Não representa, contudo, uma conclusão sobre culpa ou uma condenação antecipada.

Moedas estrangeiras foram apreendidas

Durante o cumprimento dos mandados, os agentes encontraram US$ 55 mil e € 33 mil em endereços ligados ao senador. Os valores correspondiam, na época da divulgação, a aproximadamente R$ 471 mil.

Wagner afirmou que os recursos tinham origem legal. Segundo ele, parte dos dólares foi adquirida no Banco do Brasil, enquanto outra parcela teria sido acumulada a partir de diárias recebidas em moeda estrangeira durante viagens oficiais realizadas pelo Senado.

Os valores e os demais bens recolhidos deverão ser analisados pelos investigadores. A perícia poderá verificar documentos de compra de moeda, declarações patrimoniais e registros relacionados às viagens mencionadas pelo parlamentar.

A defesa contesta a operação e sustenta que as medidas foram baseadas em interpretações equivocadas das informações obtidas pela Polícia Federal.

Senador deixou liderança do governo

O avanço da investigação produziu consequências políticas. Após ser alvo das buscas, Jaques Wagner deixou a liderança do governo no Senado.

O afastamento foi anunciado depois de uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O senador declarou que a decisão foi tomada em comum acordo e afirmou que concentraria seus esforços na defesa e nas eleições de 2026.

Wagner pretende disputar um novo mandato pelo estado da Bahia. Sua saída da liderança reduziu a exposição institucional durante o andamento do inquérito, mas ele continua exercendo normalmente o mandato parlamentar.

Integrantes do PT declararam confiança no senador e defenderam que a investigação prossiga com respeito ao direito de defesa.

Operação investiga rede ligada ao banco

A Compliance Zero apura suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo o Banco Master, empresas relacionadas e pessoas que teriam atuado para facilitar ou proteger os negócios da instituição.

Daniel Vorcaro aparece como personagem central da investigação. A PF analisa operações realizadas durante sua gestão, movimentações entre empresas e possíveis relações com autoridades e intermediários.

No núcleo relacionado a Jaques Wagner, Augusto Lima é tratado pelos investigadores como um dos principais interlocutores. A apuração busca reconstruir contatos, encontros, viagens e transações realizadas entre os envolvidos.

Os materiais recolhidos incluem mensagens, áudios, registros de chamadas, contratos, transferências bancárias, planilhas e documentos societários.

O objetivo será identificar se existia uma relação ilícita destinada a produzir vantagens para o banco ou se os contatos possuíam caráter pessoal e comercial legítimo, como sustenta a defesa.

Oitiva poderá gerar novas diligências

As respostas apresentadas em 7 de agosto deverão ser comparadas com os documentos e depoimentos já reunidos.

A Polícia Federal poderá solicitar esclarecimentos sobre a origem dos recursos, a negociação do apartamento, as relações entre as empresas e os contatos mantidos com Augusto Lima e outras pessoas ligadas ao Banco Master.

Caso sejam identificadas contradições ou novos elementos, os investigadores poderão pedir perícias, ouvir outros envolvidos ou solicitar medidas adicionais ao Supremo Tribunal Federal.

Como Jaques Wagner exerce mandato de senador, as principais decisões judiciais do caso ficam sob a competência do STF. Eventuais pedidos da PF precisam ser analisados pelo ministro responsável pelo inquérito.

Depois da conclusão das diligências, a Polícia Federal deverá elaborar um relatório. A Procuradoria-Geral da República poderá pedir novas investigações, requerer o arquivamento ou apresentar denúncia, caso entenda que existem provas suficientes.

Defesa terá oportunidade de apresentar explicações

O depoimento será uma das primeiras ocasiões em que Wagner poderá responder formalmente e de maneira detalhada às suspeitas reunidas no inquérito.

O senador poderá apresentar documentos, indicar testemunhas e explicar as operações mencionadas pelos investigadores.

A defesa sustenta que o parlamentar jamais recebeu dinheiro do Banco Master e que a negociação do imóvel não representava uma vantagem indevida. Também afirma que não houve atuação no Senado vinculada aos interesses particulares dos empresários investigados.

Até o encerramento do processo de apuração, as informações atribuídas ao senador devem ser apresentadas como hipóteses investigativas, e não como fatos definitivamente comprovados.

A oitiva de agosto será importante para definir se os elementos reunidos serão fortalecidos, esclarecidos ou afastados. O resultado poderá orientar os próximos passos de uma investigação que já provocou buscas, restrições judiciais e a saída de Wagner da liderança do governo no Senado.

*Da Agência Fonte Exclusiva

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