Uma despesa de aproximadamente US$ 4 milhões atribuída à transferência de Gianni Infantino para os Estados Unidos colocou a administração da Fifa sob questionamento. Segundo uma investigação publicada pelo jornal The New York Times, a entidade pagou impostos devidos pelo presidente em território norte-americano após sua mudança da Suíça para Miami, em maio de 2024.
O pagamento teria sido aprovado com base em uma política interna que prevê compensações tributárias para funcionários transferidos ao país. No entanto, a decisão de estender o benefício ao principal dirigente da organização gerou questionamentos entre integrantes da própria Fifa, especialmente pela dimensão do valor e pela falta de divulgação pública da compensação.
A mudança de Infantino ocorreu antes da Copa do Mundo de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, no México e no Canadá.
Pagamento dos impostos provocou divergências internas
Documentos internos citados pelo New York Times indicam que Bruno Chiomento, contador suíço e chefe de governança da Fifa, defendeu que a organização assumisse integralmente os impostos adicionais de Infantino.
A justificativa teria sido a aplicação das mesmas condições oferecidas a aproximadamente uma dúzia de funcionários transferidos para os Estados Unidos. A proposta, porém, encontrou resistência de outros integrantes da entidade.
Segundo a investigação, dirigentes que receberam orientações tributárias de especialistas diferentes questionaram a possibilidade de o presidente ficar isento de qualquer contribuição relacionada aos encargos fiscais.
A reportagem também aponta possíveis conflitos de interesse envolvendo David Zollinger, advogado pessoal de Infantino. Ele teria sido consultado por Chiomento em diferentes ocasiões sobre assuntos relacionados ao próprio presidente.
Apesar das objeções internas, a proposta de pagamento acabou aprovada, conforme os documentos analisados pelo jornal.
Remuneração e benefícios de Infantino entram no debate
O episódio também chama atenção para o conjunto de benefícios oferecidos ao presidente da Fifa. A entidade mantém regras de transparência sobre a remuneração de seus principais dirigentes, adotadas após o escândalo de corrupção revelado em 2015, que envolveu integrantes da cúpula do futebol internacional.
De acordo com o relatório financeiro citado no material, Infantino recebe aproximadamente R$ 32,7 milhões por ano. A Fifa também custeia o aluguel de sua residência em Miami, com despesas estimadas em R$ 3,3 milhões anuais, além de manter imóveis na Suíça e em Paris.
No início de sua permanência nos Estados Unidos, o dirigente morou em uma mansão avaliada em R$ 147 milhões, pertencente ao ex-presidente-executivo do Google, Eric Schmidt.
A soma dos benefícios e o pagamento dos impostos levantam discussões sobre os critérios utilizados pela entidade para definir as vantagens concedidas à sua principal liderança.
Advogados próximos ao presidente participaram de mudanças internas
A investigação do New York Times também examina a participação de pessoas próximas a Infantino em alterações de documentos e regras internas da Fifa.
David Zollinger e Gianni Rizzello, colega de graduação do presidente na Faculdade de Direito da Universidade de Friburgo, na Suíça, teriam sido chamados para colaborar em mudanças no estatuto da entidade e nas normas de remuneração.
Segundo a publicação, as alterações ampliaram as atribuições do presidente e deram a Infantino maior liberdade para receber presentes e utilizar aeronaves particulares. As mudanças também abriram espaço para o pagamento de remuneração a dirigentes de comitês consultivos criados durante sua gestão.
Essas decisões passaram a ser questionadas por levantarem dúvidas sobre a influência de pessoas do círculo pessoal do presidente na elaboração de regras que afetam a própria administração da entidade.
Questionamentos surgem antes de nova eleição na Fifa
As revelações aumentam a pressão sobre Infantino em um momento de preparação para a eleição presidencial da Fifa, prevista para março de 2027. O dirigente pretende disputar um novo mandato, mas sua gestão já enfrenta críticas relacionadas a decisões administrativas e comerciais.
Entre os episódios mencionados estão a adoção de preços dinâmicos para os ingressos da Copa do Mundo de 2026, a anulação de um cartão vermelho após um pedido do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e as negociações de direitos comerciais do torneio com uma empresa ligada ao irmão de Jared Kushner, genro do presidente norte-americano.
O conjunto de questionamentos reacende o debate sobre a governança da Fifa, a transparência de suas decisões e os critérios utilizados na concessão de benefícios à cúpula da organização.
*Da Agência Fonte Exclusiva
