O primeiro desafio do Brasil rumo à Copa do Mundo de 2030 não será apenas encontrar novos jogadores.
Depois da eliminação diante da Noruega, a Seleção precisará reconstruir sua identidade, corrigir problemas observados no último ciclo e enfrentar uma discussão que continua dividindo os torcedores: a passagem de Neymar pela equipe nacional terminou definitivamente?
A derrota por 2 a 1 nas oitavas de final representou a saída mais precoce do Brasil de uma Copa desde 1990. Neymar saiu do banco e marcou, de pênalti, o único gol brasileiro, já nos momentos finais do confronto. Após a partida, o atacante deu declarações em tom de despedida, embora não tenha apresentado uma comunicação formal de aposentadoria à Confederação Brasileira de Futebol.
A reconstrução já começa com uma definição importante. Carlo Ancelotti permanecerá no comando da Seleção, pois teve o contrato renovado pela CBF até o Mundial de 2030 antes mesmo do início da competição de 2026.
Depois da eliminação, a entidade reafirmou a continuidade do treinador, que classificou a derrota como o começo de um novo ciclo.
A eventual despedida do camisa 10 encontra apoio de uma parcela significativa da população. A pesquisa “Eu Vi o Brasil — O país do futebol?” apontou que 46% dos entrevistados consideram encerrado o ciclo de Neymar na Seleção.
Outros 36% entendem que o atacante ainda merece continuar sendo convocado, enquanto 18% não manifestaram concordância nem discordância. Os resultados mostram uma divisão, mas também revelam que a saída do jogador passou a ser vista como uma possibilidade concreta por parte expressiva dos brasileiros.
A percepção favorável à renovação torna-se mais ampla quando a pergunta não se limita à continuidade individual do jogador. Para 67% dos participantes, uma Seleção sem Neymar facilitaria a formação de uma nova geração voltada à Copa de 2030.
O levantamento também identificou redução da popularidade do atacante durante o Mundial. Neymar perdeu espaço entre os jogadores preferidos do público, aumentou sua rejeição e passou a ser menos citado como representante do espírito da equipe nacional.
Esses números indicam que o debate deixou de envolver apenas a capacidade técnica do jogador. Para parte dos torcedores, sua possível saída representa o encerramento de uma geração que produziu grandes expectativas, mas não conseguiu devolver o Brasil a uma final de Copa do Mundo.
Neymar chegou ao Mundial sem a sequência competitiva considerada ideal e teve participação reduzida. Ele entrou no segundo tempo contra a Escócia, na fase de grupos, e voltou a ser utilizado durante a derrota para a Noruega.
Somadas, as duas aparições não chegaram à duração completa de uma partida. O pouco tempo em campo impediu que o atacante tivesse influência constante no funcionamento da equipe, embora tenha marcado o gol brasileiro nas oitavas de final.
A situação reforçou uma preocupação presente desde o Mundial de 2022. Lesões, tratamentos prolongados e dificuldades para manter uma sequência de jogos tornaram a condição física o principal obstáculo para qualquer possibilidade de permanência até 2030.
Neymar estará com 38 anos durante a próxima Copa. A idade não encerra automaticamente a possibilidade de convocação, mas exigiria regularidade no clube, capacidade de suportar partidas de alta intensidade e presença contínua nas competições preparatórias.
O atacante possui contrato com o Santos até dezembro de 2026. Seu desempenho no restante da temporada deverá ajudar a indicar se ele pretende continuar no futebol profissional e se ainda considera possível reconsiderar a despedida da Seleção.
Ainda no estádio, Neymar afirmou que havia tentado e que sua trajetória pela Seleção começara e terminara no mesmo local, em Nova Jersey. As palavras foram interpretadas como uma despedida, mas o próprio contexto emocional da eliminação gerou dúvidas sobre o caráter definitivo da decisão.
Dois dias depois, Neymar da Silva Santos, pai e empresário do jogador, publicou uma carta aberta na qual pediu que o filho continuasse treinando, sorrindo e jogando futebol. A manifestação alimentou a possibilidade de que o atacante reavalie sua posição depois de superar a frustração provocada pela Copa.
Dirigentes e profissionais ligados ao futebol também demonstraram cautela ao tratar a declaração como uma aposentadoria definitiva. A avaliação é que uma eventual volta dependerá da vontade do jogador, de seu desempenho pelo Santos e dos planos estabelecidos por Ancelotti para a nova etapa.
Caso não volte a defender o Brasil, Neymar encerrará a passagem pela equipe nacional com 80 gols e 58 assistências em 130 partidas. Ele ocupa o primeiro lugar na lista de artilheiros brasileiros reconhecida pela Fifa, à frente dos 77 gols atribuídos a Pelé por esse critério.
O jogador disputou quatro Copas, em 2014, 2018, 2022 e 2026. Seu melhor resultado coletivo foi o quarto lugar no Mundial realizado no Brasil, quando uma lesão sofrida nas quartas de final o retirou da reta decisiva da competição.
Com a Seleção principal, Neymar conquistou a Copa das Confederações de 2013. Também foi uma das principais figuras da equipe que venceu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.
Apesar das marcas individuais e dos títulos, a ausência de uma Copa do Mundo continuará influenciando as avaliações sobre sua trajetória. Para alguns torcedores, Neymar foi o principal talento brasileiro de sua geração. Para outros, tornou-se o rosto de um período marcado por expectativas elevadas e eliminações sucessivas.
A insatisfação revelada pelo levantamento vai além da situação do atacante. Entre os entrevistados, 86% consideram necessárias mudanças profundas na CBF para que o Brasil volte a ocupar uma posição de destaque no futebol internacional.
Além disso, 72% acreditam que os problemas de gestão da entidade contribuíram para a eliminação nas oitavas.
O resultado reflete a instabilidade observada entre as Copas de 2022 e 2026. Após a saída de Tite, a Seleção passou pelos trabalhos de Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior antes da contratação de Carlo Ancelotti.
As mudanças de comando prejudicaram a continuidade do planejamento, provocaram alterações frequentes nas convocações e dificultaram a consolidação de um modelo de jogo. Ancelotti assumiu apenas em maio de 2025, pouco mais de um ano antes do Mundial.
Apesar da forte cobrança sobre a administração, os entrevistados não apontaram a CBF como a principal responsável direta pela derrota para a Noruega.
O desempenho dos jogadores foi citado por 30% dos participantes. As decisões de Ancelotti e de sua comissão receberam 20%, enquanto 19% responsabilizaram a convocação. A CBF apareceu com 14%, e somente 6% consideraram que a Noruega venceu simplesmente por ter sido superior em campo.
A diferença mostra que a torcida reconhece falhas estruturais, mas tende a atribuir uma eliminação específica aos acontecimentos mais visíveis da partida, como a atuação dos atletas, a escalação e as substituições.
Diferentemente do período anterior, o novo projeto começa com a comissão técnica definida. A renovação até 2030 oferece a Ancelotti a oportunidade de acompanhar integralmente a reformulação do elenco, testar novos jogadores e desenvolver uma identidade com maior continuidade.
A permanência também aumenta a responsabilidade do treinador. Ancelotti terá de decidir quais jogadores experientes ainda poderão contribuir e quais posições exigirão uma renovação mais acelerada.
O processo deverá incluir a formação de novas lideranças, a consolidação de jovens que já participaram do Mundial e a observação de atletas que surgirem no futebol brasileiro e nas principais ligas internacionais.
A Copa América de 2028 deverá funcionar como a principal avaliação competitiva antes do Mundial. Até lá, a comissão técnica precisará estabelecer uma base, reduzir a dependência de soluções individuais e apresentar uma equipe capaz de controlar partidas contra adversários de diferentes características.
A pesquisa identificou que 70% dos brasileiros consideram que a Seleção perdeu protagonismo no cenário mundial. A avaliação está relacionada ao longo período sem títulos de Copa e às eliminações antes da final desde a conquista de 2002.
Mesmo assim, permanece a percepção de que o país ainda possui capacidade para revelar jogadores e voltar a disputar os principais títulos. A confiança está associada à tradição da camisa brasileira, às cinco conquistas mundiais e à produção constante de talentos.
Essa expectativa, no entanto, precisará ser acompanhada por mudanças concretas. O crescimento de outras seleções, a evolução dos métodos de treinamento e a maior organização das federações adversárias reduziram a vantagem histórica que o Brasil possuía.
A reconstrução até 2030 exigirá planejamento, estabilidade, critérios claros para as convocações e acompanhamento permanente dos jogadores. Também será necessário definir uma identidade que não dependa exclusivamente do desempenho de uma estrela.
Nesse cenário, Neymar representa uma decisão importante, mas não é o único problema a ser solucionado. Sua permanência ou saída terá valor simbólico, porém não substituirá as reformas necessárias na gestão, na preparação e no funcionamento coletivo da Seleção.
O próximo ciclo começa com Ancelotti mantido, uma torcida mais exigente e a pressão para que a CBF transforme o discurso de renovação em um projeto consistente. Para Neymar, o desempenho nos próximos meses poderá revelar se a despedida anunciada depois da eliminação foi definitiva ou apenas uma reação à frustração de mais uma Copa sem o título.
*Da Agência Fonte Exclusiva
