A polícia boliviana prendeu o procurador-geral Roger Mariaca na noite de quarta-feira (30), dois dias depois de os Estados Unidos revogarem seu visto sob acusações de corrupção.
A operação também atingiu outros funcionários e provocou uma disputa sobre a legalidade da intervenção no Ministério Público.
Mariaca havia denunciado pressão política de Washington e relacionado a medida a investigações consideradas sensíveis, entre elas o caso do consultor político argentino Fernando Cerimedo.
Essa relação, porém, é uma acusação do procurador: as informações consultadas não demonstram que a investigação foi a causa da sanção americana.
Governo aponta suspeitas de corrupção
O ministro de Governo, Marco Antonio Oviedo, afirmou nesta quinta-feira (1º) que Mariaca e outros 13 detidos fariam parte de uma organização criminosa instalada no sistema de Justiça. Segundo o ministro, o grupo atuava para proteger atividades ligadas ao narcotráfico.
As acusações ainda precisam ser examinadas pela Justiça. Antes da prisão, Mariaca havia rejeitado as alegações americanas e classificado a revogação de seu visto como pressão sobre o trabalho da instituição.
Intervenção na Procuradoria gera protestos
Além das prisões em Santa Cruz, policiais entraram na sede da Procuradoria-Geral em Sucre. Funcionários que denunciavam a detenção de Mariaca durante uma transmissão ao vivo também foram atingidos pela ação.
Representantes do Ministério Público classificaram a prisão como ilegal e denunciaram um “sequestro”. A contestação envolve a apresentação de ordens legais e o respeito aos procedimentos necessários para prender autoridades e intervir na instituição.
O caso Cerimedo
Fernando Cerimedo, consultor ligado a lideranças da direita latino-americana e ex-assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz, está preso preventivamente na Bolívia. Ele é investigado por tentativa de feminicídio contra a advogada Nadia Beller e por outros supostos crimes.
Ao reagir à sanção americana, Mariaca afirmou que algumas investigações sob responsabilidade do Ministério Público tinham repercussões internacionais. O procurador citou expressamente Cerimedo e declarou que não abandonaria os inquéritos diante de pressões externas.
Participação americana e questionamentos
O governo boliviano informou que a operação contou com informações da agência antidrogas dos Estados Unidos, a DEA. Esse apoio foi relatado pelo ministro Oviedo, segundo o jornal El País. A cooperação ocorre em meio à aproximação entre o governo de Rodrigo Paz e Washington.
A Assembleia Legislativa boliviana solicitou, por meio da chancelaria, os antecedentes das acusações americanas contra as autoridades sancionadas. Uma sessão está prevista para 5 de outubro para discutir o assunto.
Embora a operação tenha provocado denúncias de interferência e de violação de garantias legais, os fatos verificados até agora não permitem apresentar o episódio como um golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos. A prisão, as sanções e a cooperação policial estão documentadas; a finalidade política atribuída a essas medidas permanece em disputa.
*Da Agência Fonte Exclusiva
