Uma pesquisa recente revelou um cenário preocupante para o jornalismo: adolescentes estão cada vez mais distantes do consumo de notícias e demonstram pouca confiança nos veículos de comunicação. O levantamento, conduzido pelo News Literacy Project, ouviu jovens de 13 a 18 anos nos Estados Unidos e mostrou que a maioria associa a mídia informativa a conceitos negativos como “tendenciosa”, “falsa” e “confusa”.
Entre os entrevistados, 84% usaram palavras com conotação negativa para definir a imprensa atual. Além disso, cerca de metade acredita que jornalistas favorecem anunciantes, manipulam informações ou fazem acordos impróprios com fontes. Aproximadamente seis em cada dez afirmaram que imagens e vídeos são frequentemente apresentados fora de contexto, e apenas uma minoria acredita que os profissionais checam os fatos com regularidade ou corrigem erros quando eles ocorrem.
Para especialistas em educação midiática, esse quadro reflete tanto a influência do ambiente digital quanto a forma como adultos falam sobre a imprensa. O discurso recorrente que desacredita o jornalismo acaba sendo incorporado pelos mais jovens, que crescem em meio a redes sociais e influencers como principais fontes de informação.
Ainda assim, há quem nade contra a corrente. Cat Murphy, estudante de jornalismo da Universidade de Maryland, afirma que convive diariamente com colegas que não entendem sua escolha profissional. Segundo ela, muitos veem o jornalismo como uma atividade sem futuro ou sem relevância, marcada pela perda de credibilidade. Mesmo assim, ela mantém o propósito de atuar na área com a intenção de reconstruir a confiança do público.
A pesquisa também indicou que poucos adolescentes consomem notícias de forma regular ou aprendem na escola sobre o papel do jornalismo. Isso contribui para que imagens distorcidas sobre a profissão se espalhem, reforçadas por erros da imprensa e por um cenário político polarizado, em que acusações de “fake news” se tornaram comuns.
A estudante Lily Ogburn, da Northwestern University, relatou que muitos colegas obtêm informações quase exclusivamente pelas redes sociais. Segundo ela, como não cresceram vendo jornalismo em casa, nunca desenvolveram o hábito de acompanhar notícias. Isso cria uma falsa percepção de que veículos tradicionais existem apenas para proteger pessoas poderosas, e não para fiscalizá-las.
O ex-editor do jornal Newsday e atual diretor do Centro de Alfabetização de Notícias da Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook, Howard Schneider, afirma que a postura negativa dos adolescentes espelha a dos pais. Para ele, o caminho para mudar essa realidade passa pela educação midiática. Quanto mais contato os jovens têm com jornalismo de qualidade, maior tende a ser a confiança nas informações.
Experiências em escolas mostram que a alfabetização de notícias faz diferença. Em uma escola de Utah, alunos relataram que aprenderam a checar fontes e desconfiar de boatos que circulam nas redes. Casos simples, como fake news sobre supostos roubos em museus, passaram a ser encarados com senso crítico após as aulas.
Apesar dos resultados positivos, programas desse tipo ainda são raros. Educadores enfrentam currículos sobrecarregados e resistência para incluir a alfabetização midiática como conteúdo essencial. Além disso, o desgaste da imagem do jornalismo acaba dificultando a defesa pública da disciplina.
Para profissionais da área, a indústria também precisa mudar. Há uma percepção crescente de que os veículos ainda não conseguiram dialogar plenamente com o público jovem nos ambientes digitais. Em vez de esperar que as pessoas procurem as notícias, especialistas defendem que o jornalismo precisa ir até onde os jovens estão.
O estudo indica que o afastamento dos adolescentes não significa necessariamente rejeição definitiva, mas falta de contato e compreensão. Para reverter o cenário, será preciso investir tanto em educação quanto em inovação na forma de produzir e distribuir informação.
*Da Agência Fonte Exclusiva
