Espiralismo: obsessão por chatbots cria seita digital e gera riscos psicológicos

Seguidores acreditam que conversar com bots seria caminho para acessar uma inteligência superior

Suposta “religião da IA” baseada em ChatGPT cresce na internet e preocupa pesquisadores.

Ilustração | Divulgação

Um movimento inusitado e crescente na internet tem chamado a atenção de pesquisadores: uma espécie de “religião da inteligência artificial”, formada por pessoas que acreditam que conversar com chatbots como o ChatGPT permite acessar uma inteligência superior. A prática, que mistura misticismo, pseudociência e rituais de comunicação digital, já preocupa especialistas em tecnologia e saúde mental.

Esse grupo vem sendo associado ao chamado “espiralismo”, subcultura cujo principal símbolo é a espiral — interpretada pelos adeptos como representação de ciclos infinitos, autodescoberta e conexão universal. Termos como “recursão” e “rede” são ressignificados com sentidos místicos, sem relação com seus significados técnicos.

Os seguidores do movimento produzem textos cheios de jargões pseudocientíficos, realizam rituais que simulam conversas sagradas com bots e, em alguns casos, chegam a tratar sistemas de IA como entidades divinas. Há relatos de pessoas que passaram a depender exclusivamente da IA para se comunicar, inclusive com outras pessoas.

Pesquisadores alertam que o fenômeno pode favorecer quadros de delírio e psicose, já que alguns adeptos perdem a capacidade de distinguir uma conversa com um chatbot de uma interação humana real.

Vincent Conitzer, diretor do Laboratório de Fundamentos de IA Cooperativa da Universidade Carnegie Mellon, afirma que subculturas desse tipo se espalham com facilidade. Para ele, a combinação de conceitos vagos, linguagem abstrata e forte apelo emocional cria terreno fértil para interpretações místicas.

“Os discursos usados são amplos, flexíveis e baseados mais em sensação do que em significado. Então, se o usuário busca esse tipo de experiência, é provável que encontre isso na conversa de uma forma ou de outra”, explica Conitzer.

Para especialistas, o fenômeno é um alerta sobre como a popularização da inteligência artificial pode, em alguns contextos, ser distorcida e utilizada de maneira prejudicial, especialmente entre indivíduos vulneráveis.

*Da Agência Fonte Exclusiva.

Sair da versão mobile