Denso, pesado e difícil de refinar: por que o petróleo da Venezuela interessa às refinarias dos EUA

Óleo denso e rico em enxofre é ideal para instalações da costa do Golfo, mas retomada da produção venezuelana exigirá anos de investimento

Petróleo bruto da Venezuela, mais pesado e difícil de refinar, desperta interesse das refinarias dos EUA. Especialistas alertam que recuperação da produção será lenta e custosa.

Imagem | Divulgação

Ao longo da costa do Golfo dos Estados Unidos estão concentradas algumas das refinarias mais complexas do mundo, projetadas especificamente para processar petróleo bruto pesado. Essas instalações, pertencentes a grandes companhias petrolíferas norte-americanas, voltaram ao centro do debate após a sinalização de Donald Trump de ampliar a atuação dos EUA na indústria petrolífera da Venezuela.

Essas refinarias são, em grande parte, herança de uma fase anterior ao boom do petróleo de xisto, quando os Estados Unidos dependiam fortemente do petróleo importado da América Latina. Diferentemente do óleo leve extraído do xisto, o petróleo venezuelano é extremamente denso, viscoso e rico em enxofre — mais próximo de um material semelhante ao alcatrão do que de um líquido fluido.

Embora seja mais difícil e caro de extrair e transformar em derivados como gasolina, diesel e querosene de aviação, esse tipo de petróleo é exatamente o que muitas refinarias do Golfo foram projetadas para processar. Por isso, mesmo sendo um dos maiores produtores e exportadores globais de petróleo, os EUA continuam importando grandes volumes de óleo pesado para manter suas refinarias operando de forma eficiente.

O acesso ao petróleo venezuelano a preços competitivos poderia ajudar o governo Trump a cumprir um de seus principais objetivos econômicos: garantir energia mais barata para impulsionar a reindustrialização do país. Além disso, esse fornecimento serviria como alternativa às importações de petróleo pesado do Canadá, que costumam ter custo mais elevado.

O setor de refino tem peso significativo na economia norte-americana. Apesar de empregar diretamente cerca de 80 mil trabalhadores, sustenta aproximadamente 3 milhões de empregos indiretos. Estudos indicam que a indústria apresenta um dos maiores multiplicadores de emprego dos EUA, reflexo de sua elevada produtividade e forte impacto econômico regional — muitas vezes em estados politicamente alinhados a Trump.

Durante os anos de Nicolás Maduro no poder, no entanto, a presença do petróleo venezuelano nas refinarias dos EUA encolheu drasticamente. A combinação de má gestão, corrupção, colapso da infraestrutura e sanções internacionais reduziu as exportações. Enquanto no fim dos anos 1990 os EUA importavam quase 2 milhões de barris por dia da Venezuela, esse volume caiu para cerca de 135 mil barris diários no fim de 2025.

Analistas apontam que as refinarias norte-americanas teriam capacidade de absorver rapidamente até 1 milhão de barris adicionais por dia da Venezuela, caso a produção fosse retomada. Isso também poderia redirecionar parte do petróleo que hoje segue para a China — principal destino do óleo venezuelano desde a imposição das sanções americanas.

Para Pequim, a perda desse fornecimento teria impacto limitado, já que o volume representa pequena parcela de seu consumo total. Ainda assim, forçar a China a buscar alternativas mais caras poderia elevar os custos energéticos em um momento de disputa econômica global intensa.

Apesar do interesse estratégico, a recuperação da produção venezuelana está longe de ser simples. Estimativas indicam que levar a produção de volta ao patamar de 3 milhões de barris por dia exigiria até 16 anos de investimentos, somando cerca de US$ 185 bilhões. Apenas nos próximos três anos, seriam necessários entre US$ 30 bilhões e US$ 35 bilhões em capital internacional.

Especialistas ressaltam que esse cenário depende de estabilidade política, segurança jurídica e reconstrução da infraestrutura, fatores que ainda geram desconfiança entre investidores. Anos de subinvestimento corroeram campos, refinarias e oleodutos, além de provocar a saída de grande parte da mão de obra qualificada do país.

Mesmo assim, o mercado internacional reagiu com cautela às declarações de Trump. Os preços globais do petróleo registraram apenas leves oscilações, embora ações de grandes petrolíferas dos EUA tenham avançado, refletindo expectativas de ganhos futuros.

Analistas alertam que, mesmo em um cenário político mais favorável, a retomada consistente da indústria petrolífera venezuelana será lenta, cara e cheia de incertezas, tornando improvável uma solução rápida para as ambições energéticas dos Estados Unidos.

*Da Agência Fonte Exclusiva

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