A disputa por alternativas ao dólar no comércio internacional ganhou um novo capítulo com o avanço da China sobre a infraestrutura financeira africana.
Pequim vem ampliando mecanismos para facilitar transações em yuan, também chamado de renminbi, em operações comerciais com países do continente africano.
A estratégia faz parte de um movimento mais amplo de internacionalização da moeda chinesa e de redução gradual da dependência do dólar em parte das trocas globais.
Apesar disso, analistas avaliam que o yuan ainda está longe de substituir a moeda norte-americana, que segue dominante em pagamentos internacionais, reservas cambiais, comércio de commodities e contratos financeiros.
No fim de junho, o Banco Popular da China autorizou o Standard Bank, maior grupo bancário da África, e o Banco Industrial e Comercial da China, o ICBC, a operarem a compensação de transações em renminbi no continente.
A medida cria uma estrutura capaz de facilitar pagamentos entre empresas africanas e chinesas sem a necessidade de conversão prévia para o dólar.
Na prática, o mecanismo permite que negócios ligados a importações, exportações, investimentos e serviços financeiros sejam liquidados diretamente na moeda chinesa. A expectativa é reduzir custos de conversão, simplificar operações e ampliar o acesso de empresas africanas ao sistema financeiro chinês.
O Standard Bank atua em diversos países do continente e já vinha ampliando sua integração com o sistema chinês de pagamentos transfronteiriços. Com a nova autorização, a instituição passa a ter papel mais relevante na expansão do uso do yuan em operações comerciais entre África e China.
A iniciativa ocorre em um momento de forte aproximação econômica entre os dois lados. A China é hoje uma das principais parceiras comerciais do continente africano, com presença em áreas como infraestrutura, energia, mineração, agricultura, tecnologia e financiamento de obras públicas.
Outro fator que pode ampliar esse fluxo é a decisão chinesa de retirar tarifas de importação sobre produtos de dezenas de países africanos. A medida tende a estimular exportações do continente para o mercado chinês e, ao mesmo tempo, aumentar a demanda por liquidações comerciais em yuan.
Mesmo com esse avanço, o processo de desdolarização ainda é visto como lento. O dólar continua sendo a principal referência mundial para contratos de petróleo, gás, grãos, fertilizantes, metais e outras commodities estratégicas. Essa predominância mantém os Estados Unidos em posição central no sistema financeiro internacional.
A força do dólar também está associada à profundidade do mercado financeiro norte-americano, à liquidez dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e à confiança internacional na moeda como reserva de valor. Por isso, substituir o dólar não depende apenas de vontade política, mas de infraestrutura financeira, confiança, escala e liberdade de circulação de capitais.
O yuan vem ganhando espaço, mas ainda enfrenta limitações. A China mantém controles sobre sua conta de capitais, o que restringe a entrada e saída livre de recursos financeiros. Essa cautela protege o país de movimentos especulativos, mas também reduz a atratividade do renminbi como moeda global de reserva.
Além disso, Pequim não tem interesse em uma valorização rápida demais do yuan. Uma moeda chinesa muito forte poderia encarecer exportações e afetar a competitividade de empresas do país no mercado internacional. Por esse motivo, a estratégia chinesa tende a ser gradual, com expansão controlada do uso da moeda.
Especialistas avaliam que a China está construindo uma infraestrutura para o futuro. Em vez de promover uma ruptura imediata com o dólar, Pequim cria canais bancários, sistemas de compensação, acordos comerciais e plataformas de pagamento que podem sustentar um uso maior do yuan ao longo dos próximos anos.
A África ocupa papel importante nesse processo. O continente reúne mercados em expansão, grande demanda por infraestrutura, recursos naturais estratégicos e relações comerciais crescentes com a China. Ao facilitar pagamentos em renminbi, Pequim fortalece sua influência econômica e reduz a necessidade de intermediação por moedas ocidentais.
A discussão também se conecta ao Brics, grupo formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, hoje ampliado com novos integrantes. Em diferentes fóruns, países do bloco têm defendido alternativas ao uso predominante do dólar, especialmente após sanções financeiras aplicadas pelos Estados Unidos e aliados contra países considerados adversários.
Para defensores da desdolarização, a dependência da moeda norte-americana aumenta a vulnerabilidade de economias emergentes. Quando os Estados Unidos elevam juros, por exemplo, moedas de países mais pobres podem se desvalorizar, encarecendo importações de alimentos, energia, combustíveis e fertilizantes.
Esse efeito pode pressionar a inflação e agravar problemas sociais em economias mais frágeis. Por isso, governos e economistas do Sul Global defendem maior diversificação monetária no comércio internacional, com uso de moedas locais, acordos bilaterais e novas unidades de conta.
A agenda, no entanto, enfrenta resistência de Washington. O governo dos Estados Unidos vê a liderança global do dólar como um elemento de poder econômico e geopolítico. O presidente Donald Trump já ameaçou impor tarifas a países do Brics que tentem criar ou apoiar uma moeda alternativa ao dólar.
Dentro do próprio debate sobre desdolarização, há divergências sobre o melhor caminho. Parte dos analistas considera que o yuan pode ganhar espaço de forma natural, impulsionado pelo peso comercial da China. Outros defendem que substituir o dólar pela moeda chinesa apenas trocaria uma dependência por outra.
Entre as propostas discutidas está a criação de uma unidade de conta baseada em uma cesta de moedas de países do Brics e de outras economias do Sul Global. Esse modelo buscaria reduzir a concentração em uma única moeda e oferecer uma alternativa para liquidações internacionais, sem transformar o yuan em substituto direto do dólar.
Por enquanto, o cenário mais provável é de convivência entre moedas, com o dólar ainda dominante e o yuan avançando em nichos específicos. Na África, esse avanço pode ser mais rápido por causa da intensidade das relações comerciais com a China e da necessidade de reduzir custos em operações internacionais.
A nova autorização envolvendo Standard Bank e ICBC mostra que a disputa monetária global não acontece apenas em discursos diplomáticos. Ela passa por bancos, sistemas de pagamento, contratos comerciais, linhas de crédito, importações, exportações e pela capacidade de cada país construir confiança em torno de sua moeda.
A expansão do yuan na África não representa uma ruptura imediata com o dólar, mas indica uma mudança em curso. O movimento revela que a China busca consolidar instrumentos próprios de influência financeira e ampliar sua presença em regiões estratégicas.
O dólar continua sendo a principal moeda do comércio e das finanças globais. O yuan cresce, mas ainda ocupa posição secundária. A desdolarização, portanto, aparece menos como uma virada brusca e mais como uma disputa lenta por espaço, poder e autonomia no sistema econômico internacional.
*Da Agência Fonte Exclusiva
