Pesquisadores do Museu Fitzwilliam, da Universidade de Cambridge, identificaram evidências de que artesãos do Antigo Egito utilizavam uma técnica semelhante ao corretivo moderno para corrigir erros em manuscritos de papiro.
A descoberta ocorreu durante a preparação de um papiro egípcio para a exposição “Feito no Antigo Egito”, que ficará em cartaz até 12 de abril. O documento analisado é uma cópia do Livro dos Mortos — conjunto de textos e feitiços funerários que, segundo a crença egípcia, ajudavam a guiar o falecido na vida após a morte.
O manuscrito foi produzido para Ramose, um escriba real que viveu no início do século XIII antes de Cristo. Durante a análise da peça, os pesquisadores perceberam marcas de tinta branca aplicadas em uma ilustração que representa um chacal, possivelmente associado ao deus Wepwawet, divindade ligada à guerra e à proteção dos mortos.
As pinceladas brancas foram usadas para alterar o contorno do animal, tornando sua silhueta mais estreita. Segundo os especialistas, a intervenção sugere que alguém considerou a figura original excessivamente larga e decidiu ajustar a imagem.
Análise científica revelou composição da tinta
Para compreender melhor a técnica utilizada, os pesquisadores recorreram a métodos como fotografia infravermelha e microscopia digital em três dimensões.
Os exames revelaram que a tinta branca era composta por uma mistura de calcita e huntita, dois tipos de carbonatos minerais de cor clara. Essa composição difere da tinta usada em outras partes do manuscrito, como nas vestes da figura humana representada no papiro, que continha apenas huntita.
Os cientistas também detectaram vestígios de ouropigmento amarelo, que provavelmente foi utilizado para ajudar a correção a se misturar melhor com o fundo do papiro. De acordo com os especialistas, o material original teria sido muito mais claro na antiguidade do que aparenta atualmente.
Correções também aparecem em outros manuscritos
A egiptóloga Helen Strudwick, curadora da exposição, afirmou que já encontrou evidências da mesma técnica em outros papiros preservados em museus como o Museu Britânico e o Museu Egípcio do Cairo.
Segundo ela, esse tipo de detalhe costuma passar despercebido em análises superficiais, mas revela práticas comuns de revisão e correção utilizadas por artesãos e escribas na produção de documentos religiosos.
História do manuscrito
O papiro analisado foi descoberto em 1922 na região de Sedment, no Médio Egito, durante escavações conduzidas pelo arqueólogo William Flinders Petrie.
Posteriormente, o manuscrito foi incorporado à coleção do Museu Fitzwilliam. Estima-se que o documento original tenha tido mais de 18 metros de comprimento.
Nos anos 2000, especialistas realizaram um trabalho detalhado de conservação e remontagem dos fragmentos sobreviventes. Hoje, o manuscrito é considerado um dos exemplares mais bem preservados do Livro dos Mortos.
Além de seu valor histórico e religioso, a peça também revela um aspecto bastante humano da produção artística e documental no Antigo Egito: a preocupação em corrigir erros antes que fossem percebidos.
*Da Agência Fonte Exclusiva
