Uma das produções mais experimentais da carreira de Glauber Rocha, “Cabeças Cortadas” passará por um processo de restauração digital em 4K com previsão de lançamento em 2027. Filmado em 1970, durante o período em que o cineasta brasileiro estava exilado, o longa foi realizado na Catalunha, na Espanha, e utiliza elementos de poesia, teatro e alegoria para discutir regimes autoritários e relações de poder.
O projeto reúne instituições espanholas ligadas ao cinema e busca recuperar a qualidade de imagem e áudio da obra, além de ampliar seu acesso ao público. A iniciativa também pretende apresentar o filme a novas gerações, já que a produção permaneceu por muitos anos com circulação limitada.
Ditador é símbolo de diferentes regimes autoritários
Na história, o protagonista é Diaz II, um ditador interpretado pelo ator espanhol Francisco Rabal. A construção do personagem reúne características associadas a diferentes governantes autoritários da América Latina e ao regime de Francisco Franco, que comandava a Espanha quando o filme foi produzido.
O personagem aparece isolado e confrontado com as consequências de suas próprias decisões, enquanto a narrativa explora a decadência do poder e a proximidade da morte.
Em uma das sequências mais marcantes, Diaz II conversa ao telefone e demonstra uma visão exagerada de sua própria autoridade. O personagem chega a afirmar que possui influência sobre fenômenos naturais e determina o retorno de um filósofo exilado, a quem pretende entregar o comando de uma fundação financiada por recursos obtidos com a produção agrícola destinada aos Estados Unidos.
Glauber Rocha rompe com o cinema tradicional
“Cabeças Cortadas” não segue uma estrutura narrativa convencional. O filme combina símbolos, improvisação, música, teatro e imagens alegóricas, criando uma experiência distante dos padrões do cinema comercial.
A escolha fazia parte da concepção artística de Glauber Rocha, que buscava estimular uma relação mais livre entre o espectador e a obra. Em vez de apresentar uma história linear e de fácil interpretação, o diretor apostava em elementos capazes de provocar diferentes leituras.
O contexto político também é fundamental para compreender a produção. Glauber deixou o Brasil durante a ditadura militar e passou parte de sua trajetória no exterior. Mesmo longe do país, continuou utilizando o cinema para abordar temas como autoritarismo, desigualdade, imperialismo e disputas de poder.
Para o diretor e crítico de cinema Cavi Borges, a importância do longa está justamente na combinação entre experimentação artística e crítica política. A obra aborda questões relacionadas ao fascismo, ao racismo e à influência dos Estados Unidos na América Latina, ao mesmo tempo em que se distancia das fórmulas tradicionais da indústria cinematográfica.
Restauração vai recuperar imagem e som
A restauração está sendo realizada pela Escola de Cinema de Madrid (Ecam), pela Vídeo Mercury Films e pela FlixOlé. O trabalho inclui a recuperação da imagem, correção de cores e tratamento do áudio.
A nova cópia em 4K deverá oferecer melhores condições para exibições em cinemas e outras plataformas, contribuindo para a preservação de uma obra considerada importante na filmografia de Glauber Rocha.
O projeto também prevê a criação de um site dedicado ao filme. O espaço reunirá informações sobre a produção, depoimentos, registros dos bastidores e relatos sobre as dificuldades enfrentadas durante as filmagens na Catalunha.
Entre os registros estão referências aos fortes ventos da Tramontana, fenômeno característico da região onde parte das gravações foi realizada.
Os materiais também ajudam a mostrar o método de trabalho de Glauber, conhecido pela liberdade dada aos atores e pela utilização frequente de improvisações.
Obra representa a radicalidade do Cinema Novo
Glauber Rocha foi um dos principais nomes do Cinema Novo brasileiro, movimento que buscava romper com modelos tradicionais de produção e narrativa e aproximar o cinema de questões sociais e políticas.
Em “Cabeças Cortadas”, essa proposta aparece de maneira particularmente experimental. O diretor utiliza uma linguagem marcada por imagens simbólicas e situações que podem ser interpretadas de diferentes maneiras.
O próprio Glauber defendia uma experiência cinematográfica que não dependesse exclusivamente de uma narrativa convencional. Para ele, o espectador deveria se relacionar com o filme de maneira semelhante ao contato com um poema, uma música ou uma pintura.
Essa característica ajudou a transformar a produção em uma das experiências mais singulares de sua carreira.
Filme poderá ser redescoberto por novas gerações
Além de recuperar tecnicamente o longa, a restauração pretende devolver visibilidade a uma obra que ficou durante décadas distante de grande parte do público.
Glauber Rocha morreu em 1981, aos 42 anos, e deixou uma filmografia marcada pela experimentação e pela crítica às estruturas de poder. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe”.
Com a nova versão prevista para 2027, “Cabeças Cortadas” deverá voltar a circular em melhores condições técnicas, permitindo que novos espectadores conheçam uma das produções mais ousadas do cineasta e compreendam melhor a dimensão política e artística de seu trabalho.
*Da Agência Fonte Exclusiva
