As cidades brasileiras que mais precisam investir em obras contra enchentes e enxurradas são justamente as que conseguem menos crédito por morador para prevenir esses desastres. Um levantamento publicado neste domingo (11) mostra que municípios classificados como vulneráveis receberam, em 2025, financiamentos por habitante 68% menores do que os destinados a cidades com menor exposição ao problema.
O estudo cruzou dados de operações de crédito reunidos pela Associação Brasileira dos Bancos de Desenvolvimento (Abde) com informações da Casa Civil sobre municípios suscetíveis a inundações e enxurradas.
A diferença aparece quando os valores são divididos pelo número de habitantes. Enquanto as cidades mais vulneráveis receberam R$ 64 por pessoa em financiamentos para infraestrutura verde e resiliência ambiental, os demais municípios analisados alcançaram R$ 197 por habitante.
O resultado revela um problema que vai além da disponibilidade de dinheiro: muitas prefeituras que enfrentam riscos elevados não conseguem transformar suas necessidades em projetos capazes de obter financiamento.
Municípios mais vulneráveis ficam atrás na distribuição por habitante
Entre as cidades analisadas, 17 municípios classificados como suscetíveis a enchentes e enxurradas contrataram R$ 406,3 milhões em financiamentos voltados à infraestrutura verde e à resiliência ambiental.
Outros 28 municípios receberam R$ 292,2 milhões nas mesmas categorias.
Embora o primeiro grupo tenha contratado um volume total maior, sua população também é mais numerosa. Por isso, quando o investimento é calculado por habitante, a diferença se inverte.
Nas cidades mais expostas aos desastres, o crédito chegou a R$ 64 por pessoa. Nos demais municípios, alcançou R$ 197.
Isso significa que, proporcionalmente à população, as localidades de maior risco tiveram acesso a aproximadamente um terço do financiamento registrado no outro grupo.
Diferença também aparece no saneamento e na Defesa Civil
A desigualdade não se limita às obras de infraestrutura verde.
Quando os financiamentos para saneamento são incluídos na comparação, os municípios vulneráveis registram R$ 122 por habitante, enquanto os demais alcançam R$ 265. A diferença é de aproximadamente 54%.
Nos gastos associados à Defesa Civil, o levantamento também identificou uma distância expressiva: R$ 11,88 por morador nas cidades mais expostas, contra R$ 20,89 nas demais.
A diferença, nesse caso, chega a cerca de 43%.
Os números indicam que os municípios mais sujeitos a enchentes enfrentam dificuldades em diferentes frentes de preparação, desde obras estruturais até ações relacionadas à prevenção e à resposta a emergências.
Falta de projetos impede prefeituras de conseguir financiamento
Uma das explicações está na capacidade técnica das administrações municipais.
Segundo Eduardo Djanikian, gerente de Sustentabilidade, Economia e Inovação da Abde, existem linhas de crédito disponíveis, mas parte das prefeituras não dispõe de equipes especializadas para elaborar projetos, preparar documentos e cumprir as exigências das instituições financeiras.
Para obter recursos destinados a uma obra de drenagem, por exemplo, o município geralmente precisa apresentar estudos técnicos, orçamento, cronograma e informações sobre os resultados esperados.
Sem essa estrutura, propostas podem nem chegar à etapa de análise de financiamento.
O problema é especialmente grave em municípios com equipes reduzidas e pouca capacidade de planejamento.
Situação fiscal também dificulta acesso ao dinheiro
Outro obstáculo está nas condições financeiras das prefeituras.
A contratação de operações de crédito depende do cumprimento de exigências legais e fiscais, incluindo avaliações da capacidade de pagamento realizadas pelo Tesouro Nacional, conforme as regras aplicáveis.
Municípios com contas comprometidas podem encontrar dificuldades para assumir novos empréstimos, mesmo quando precisam executar obras consideradas urgentes.
Na prática, isso cria um desafio: cidades que necessitam de infraestrutura para evitar prejuízos futuros nem sempre possuem as condições exigidas para financiar esses investimentos.
O resultado pode ser o adiamento de intervenções em redes de drenagem, contenção de encostas e outras estruturas de proteção.
Cidade mineira busca solução para alagamentos antigos
O município de Unaí, em Minas Gerais, é um exemplo de como a situação fiscal influencia a realização de obras preventivas.
Moradores da região da Chácara Rio Preto convivem há cerca de duas décadas com episódios de alagamento.
Depois de melhorar suas condições financeiras, a prefeitura conseguiu aprovar um financiamento de R$ 1,1 milhão para construir aproximadamente um quilômetro de rede de drenagem.
A intervenção tem como objetivo reduzir o acúmulo de água e diminuir os impactos das chuvas na região.
O caso mostra que a contratação de crédito pode abrir caminho para obras importantes, mas depende de condições administrativas e financeiras que nem todos os municípios conseguem reunir.
Desastres relacionados à água já causaram prejuízos superiores a R$ 740 bilhões
O impacto das enchentes, enxurradas e outros desastres associados à água ajuda a dimensionar a importância dos investimentos preventivos.
Um levantamento elaborado por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificou registros desse tipo de desastre em 5.097 municípios brasileiros entre 1991 e 2024.
Durante o período, foram contabilizados aproximadamente 60 mil eventos, que provocaram 4.774 mortes e afetaram diretamente mais de 129 milhões de pessoas.
Os prejuízos econômicos ultrapassaram R$ 740 bilhões.
Os números incluem diferentes ocorrências relacionadas à água e demonstram que os efeitos vão muito além dos danos imediatos às residências.
Desastres também interrompem serviços públicos, comprometem estradas, atingem atividades econômicas e exigem despesas emergenciais para atender famílias e reconstruir áreas destruídas.
Prevenir custa menos do que reconstruir
A dificuldade de financiar obras preventivas pode aumentar a conta paga pelos municípios nos anos seguintes.
Quando uma enchente destrói ruas, pontes ou equipamentos públicos, a prefeitura precisa mobilizar recursos para recuperar estruturas que poderiam ter sido protegidas por intervenções anteriores.
Além dos gastos materiais, há perdas humanas e impactos sociais que não podem ser reparados apenas com investimentos financeiros.
Especialistas defendem que a prevenção seja tratada como parte permanente do planejamento urbano, e não somente como uma resposta às tragédias.
Os dados do levantamento apontam para a necessidade de ampliar o apoio técnico às prefeituras e facilitar a elaboração de projetos de prevenção, especialmente nas localidades com maior exposição aos riscos.
Sem essas medidas, o país corre o risco de continuar destinando menos recursos por habitante justamente às cidades onde os efeitos das chuvas podem ser mais graves.
Os números que mostram a desigualdade
Cidades vulneráveis
R$ 64
Crédito por habitante
Demais cidades analisadas
R$ 197
Crédito por habitante
Financiamentos por habitante em 2025
Valores em reais; comparação entre municípios com maior suscetibilidade a enchentes e os demais da amostra.
■ Demais cidades
Fonte: levantamento com dados da Abde e da Casa Civil. Os valores de Defesa Civil correspondem a gastos associados à área, e não necessariamente a operações de crédito.
