A produção de caju vem passando por um processo de modernização no Piauí, com a adoção de novas tecnologias, variedades mais adaptadas ao semiárido e técnicas de manejo voltadas ao aumento da produtividade.
A atividade, que possui forte presença entre agricultores familiares, também tem sido beneficiada por iniciativas de distribuição de mudas e investimentos em pesquisa.
Desde fevereiro de 2026, a Secretaria da Agricultura Familiar do Piauí iniciou a entrega de 400 mil mudas de cajueiro a produtores rurais.
A ação integra um pacote de R$ 9 milhões destinado ao fortalecimento da agricultura familiar e pretende ampliar os cultivos, melhorar a qualidade dos pomares e contribuir para a geração de renda no campo.
A distribuição ocorre em diferentes regiões do estado. No Território dos Cocais, por exemplo, mais de 30 mil mudas foram destinadas a agricultores de municípios como Porto e Esperantina.
A proposta é facilitar o acesso a materiais de melhor qualidade e estimular a expansão da atividade.
Entre as variedades utilizadas está o cajueiro-anão precoce, considerado adequado às condições do semiárido. Segundo a Embrapa Meio-Norte, a variedade apresenta ciclo mais curto e potencial para alcançar maior produção de castanhas em comparação ao cajueiro comum.
O aproveitamento da planta também permite ampliar as possibilidades econômicas para os produtores. A castanha pode ser destinada ao processamento e à fabricação de amêndoas, enquanto o pedúnculo pode ser utilizado na produção de sucos, polpas, doces e cajuína.
Tecnologia melhora formação dos pomares
Outra estratégia utilizada no estado é a produção de mudas enxertadas. Em Ipiranga do Piauí, agricultores recebem exemplares do cajueiro-anão precoce dos clones CCP-76 e BRS 226.
A técnica permite trabalhar com materiais geneticamente selecionados e busca proporcionar maior uniformidade aos pomares, além de antecipar o início da produção em determinadas condições de cultivo.
A tecnologia também passou a fazer parte do acompanhamento das plantações. Desenvolvida pela Embrapa, a plataforma Monitora Caju foi criada para auxiliar produtores e técnicos no monitoramento fitossanitário das lavouras.
O sistema contribui para a identificação de problemas que podem comprometer o desenvolvimento dos cajueiros, entre eles doenças e pragas como oídio, traça-das-castanhas e broca-das-pontas.
Após o primeiro acesso, a ferramenta também pode ser utilizada sem conexão com a internet, o que facilita a aplicação em propriedades com limitações de conectividade.
Agricultura de precisão chega aos cajueiros
Pesquisadores também trabalham na utilização de recursos de agricultura de precisão para aperfeiçoar o manejo dos pomares. Um projeto desenvolvido pela Universidade Estadual do Piauí combina informações sobre as características do solo, a condição sanitária das plantas e imagens obtidas por drones.
A integração desses dados pode ajudar na elaboração de diagnósticos mais detalhados e na definição de estratégias para reduzir perdas e melhorar o acompanhamento das lavouras.
A disponibilidade de água, entretanto, continua entre os principais desafios enfrentados pelos produtores no semiárido. Por isso, pesquisas da Embrapa também avaliam alternativas capazes de melhorar o aproveitamento da água utilizada na produção.
Entre as soluções estudadas estão o hidrogel e o biochar. Em experimentos, o uso de hidrogel apresentou taxa de sobrevivência de 100% das mudas de cajueiro-anão e esteve associado a uma redução de 46% nos custos de irrigação.
O biochar, produzido a partir de resíduos de poda, também apresentou resultados positivos em indicadores relacionados ao cultivo irrigado.
Cultivares adaptadas ao semiárido
A seleção das variedades também é considerada uma estratégia para enfrentar as características climáticas do Piauí. A cultivar Embrapa 51, por exemplo, foi desenvolvida para apresentar desempenho em áreas de sequeiro e possui adaptação a regiões de baixa altitude do semiárido.
Conforme dados da Embrapa, a variedade apresenta produtividade média de 1.650 quilos de castanha por hectare. Os resultados, entretanto, podem variar conforme as condições ambientais, o manejo e as características de cada área cultivada.
Além da produção agrícola, a cadeia do caju envolve atividades de beneficiamento e processamento, que também contribuem para movimentar a economia regional e gerar oportunidades de trabalho e renda.
A Codevasf destaca a importância da cajucultura para o estado e aponta a atividade como uma alternativa econômica para produtores em períodos de entressafra de outras culturas. Em 2026, a companhia informou ter distribuído mais de 250 mil mudas de caju no Piauí, alcançando aproximadamente 1,2 mil famílias em 26 municípios.
Pesquisa e inovação no campo
O avanço da cajucultura piauiense reúne diferentes iniciativas, desde a distribuição de mudas e o melhoramento genético até técnicas de enxertia, ferramentas digitais e alternativas para tornar o uso da água mais eficiente.
Para os agricultores familiares, a combinação dessas estratégias pode ampliar as possibilidades de diversificação da produção e fortalecer a geração de renda em regiões marcadas por períodos de estiagem e limitações hídricas.
A aproximação entre conhecimentos tradicionais e tecnologias desenvolvidas por instituições de pesquisa também representa uma mudança importante no manejo dos pomares. No semiárido, fatores como falta de água, ocorrência de pragas e variações climáticas podem interferir diretamente nos resultados da produção.
Com a expansão das áreas cultivadas e o acesso a variedades selecionadas, o Piauí busca fortalecer a cadeia produtiva do caju em diferentes etapas, desde a formação das mudas e o cultivo até o processamento dos produtos.
A expectativa é que a combinação entre pesquisa, tecnologia, assistência aos produtores e materiais mais adaptados às condições locais contribua para aumentar a eficiência da produção e ampliar a participação da cajucultura na economia do estado.
*Da Agência Fonte Exclusiva.