A lenta recuperação da foz do Rio Doce, 10 anos após o desastre de Mariana

Lama ainda assombra a região; rejeitos permanecem no fundo do rio e do mar, moradores se reinventam e lutam por reparação

Dez anos após o desastre de Mariana, a foz do Rio Doce ainda sofre com lama no rio e no mar. Comunidade de Regência luta por reparação, enfrenta conflitos sociais e busca se reinventar.

(DIvulgação)

Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), a foz do Rio Doce ainda enfrenta os impactos da lama de rejeitos de mineração. Parte do material segue depositado no leito do rio e no fundo do mar, ressurgindo em dias de chuva intensa ou mar agitado e comprometendo a biodiversidade local.

A comunidade de Regência Augusta, em Linhares (ES), símbolo da resistência, ainda convive com incertezas. A pesca, principal atividade da vila, segue inviabilizada, e o turismo, antes impulsionado pelo surfe, não se recuperou totalmente. “Pra mim mudou tudo, porque não posso mais pescar. Era o que eu mais gostava de fazer”, lamenta Clavelanio Peçanha, o Seu Preto, de 66 anos, que hoje transporta pesquisadores em seu bote.

Pesquisas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) mostram que os efeitos ambientais são crônicos: metais pesados permanecem no ecossistema, afetando desde larvas de peixes até tartarugas e botos.

Conflitos sociais e busca por justiça

Além dos danos ambientais, moradores relatam desigualdade no processo de reparação conduzido pela Fundação Renova, criada em 2016. Muitos se dizem injustiçados e denunciam critérios de indenização desiguais. Mulheres, comerciantes e surfistas foram alguns dos grupos que ficaram à margem do reconhecimento oficial.

Recentemente, o Novo Acordo do Rio Doce destinou R$ 100 bilhões para reparações e ações ambientais, incluindo um programa de transferência de renda para pescadores e agricultores. No entanto, moradores afirmam que ainda há exclusões e desafios.

Resistência e reinvenção

Entre dores e perdas, alguns moradores encontraram novos caminhos. O pescador Tunay Souza Oliveira, por exemplo, transformou-se em meliponicultor após o desastre e hoje produz mel com abelhas sem ferrão. Batizou sua marca de Watu, nome indígena para o Rio Doce, como forma de manter o vínculo com a natureza.

Já surfistas como Robson “Pontinha” Barros lutam para que a prática também seja reconhecida como atingida, já que as ondas de Regência — hoje Reserva Nacional do Surfe — são parte essencial da identidade local.

Enquanto isso, pescadores como Seu Preto seguem navegando, mas à espera de um futuro em que o Rio Doce possa, um dia, voltar a ser fonte de sustento e vida.

Da Agência Fonte Exclusiva, com informações da DW Brasil.

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