Uma tecnologia desenvolvida na Universidade Federal do Ceará (UFC) está usando realidade virtual para ajudar pessoas idosas a reconhecer situações que aumentam o risco de quedas dentro de casa. Batizado de PrevineQuedas, o jogo transforma ambientes domésticos em cenários virtuais nos quais o participante precisa encontrar possíveis perigos e também identificar medidas de prevenção.
A ferramenta nasceu da tese de doutorado da enfermeira Jamylle Lucas Diniz, no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC. O trabalho, intitulado “Gerontecnologia do tipo jogo sério de realidade virtual para prevenção de quedas em pessoas idosas”, venceu o Prêmio Capes de Tese 2026 na área de Enfermagem.
A proposta vai além de simplesmente colocar óculos de realidade virtual no participante. O jogo recria situações que fazem parte da rotina e desafia o idoso a observar o ambiente, localizar riscos e entender quais mudanças podem tornar a casa mais segura.
Quarto e banheiro viram cenários do jogo
O PrevineQuedas apresenta quatro cenários virtuais. Dois contêm situações que representam risco de queda e outros dois mostram elementos relacionados à prevenção. Quarto e banheiro estão entre os ambientes utilizados na experiência.
Ao entrar no ambiente virtual, o participante tem até dois minutos para localizar os objetos. A interação acontece por meio dos movimentos da cabeça e do olhar, permitindo explorar diferentes partes do cenário.
Quando um item é identificado, o próprio sistema oferece uma resposta visual. Objetos perigosos são destacados em vermelho, enquanto elementos relacionados à segurança aparecem em verde.
A experiência procura transformar orientações que poderiam parecer abstratas em situações facilmente reconhecidas no dia a dia.
Idosos participaram da criação
Um dos diferenciais do projeto foi envolver pessoas idosas no desenvolvimento da ferramenta.
Durante a pesquisa, os participantes ajudaram a apontar os cômodos onde as quedas acontecem com maior frequência, além dos móveis e objetos que deveriam aparecer nos cenários.
A participação desse público também ajudou os pesquisadores a adaptar a dinâmica do jogo às necessidades motoras e cognitivas dos idosos.
O resultado foi uma ferramenta pensada não apenas para falar sobre os idosos, mas construída a partir das experiências deles.
Equipamentos são relativamente simples
Para utilizar o PrevineQuedas, são necessários um smartphone com sistema Android, óculos de realidade virtual, o aplicativo e uma cadeira giratória.
O participante permanece sentado durante a atividade e consegue observar o cenário em 360 graus. A escolha permite explorar o ambiente sem a necessidade de caminhar enquanto utiliza os óculos, aumentando a segurança durante a experiência.
Em avaliação acadêmica sobre a ferramenta, o índice geral de concordância para usabilidade chegou a 91,42%. Facilidade de aprendizado e clareza das regras alcançaram 100% de concordância entre os participantes avaliados.
Quedas são um problema de saúde pública
A pesquisa ganha relevância diante do número de acidentes envolvendo a população idosa.
Dados do Ministério da Saúde citados pela Capes mostram que, em 2025, foram registrados no Brasil 85.169 atendimentos ambulatoriais, 48.576 internações pelo Sistema Único de Saúde e 9.050 mortes de idosos relacionadas a quedas. Isso representa uma média próxima de 24 mortes por dia.
Dentro de casa, alguns perigos podem passar despercebidos: piso escorregadio, tapetes soltos, pouca iluminação e falta de barras de apoio estão entre os fatores que podem aumentar o risco.
A prevenção também envolve acompanhamento de saúde, atenção a medicamentos que possam provocar tontura, uso adequado de bengalas ou andadores quando indicados e exercícios voltados ao equilíbrio.
Tecnologia já é usada em ações com a comunidade
O PrevineQuedas não ficou restrito à tese acadêmica. A tecnologia passou a ser utilizada em atividades de educação em saúde ligadas a projetos e ações de extensão da UFC com grupos de idosos.
A ideia é usar a realidade virtual como uma ferramenta educativa, aproximando informações sobre prevenção de situações comuns do cotidiano.
O projeto também se conecta a uma área de pesquisa que vem ganhando espaço na universidade. A UFC mantém um centro voltado à simulação clínica e à realidade virtual em enfermagem e saúde, com pesquisas dedicadas ao uso dessas tecnologias na formação profissional e no cuidado com diferentes públicos.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
