Os Estados Unidos pretendem utilizar petróleo venezuelano para ajudar a recompor os estoques da Reserva Estratégica de Petróleo (SPR), que chegaram ao menor nível em décadas. A intenção foi reafirmada pelo presidente Donald Trump nesta quinta-feira (1º), em meio à aproximação entre Washington e Caracas no setor de energia.
Trump afirmou que os Estados Unidos estão retirando grandes volumes de petróleo da reserva e que o país deverá iniciar a reposição utilizando a produção venezuelana. A declaração ocorre enquanto os dois governos avançam em acordos para ampliar os investimentos e a produção de petróleo na Venezuela.
Dados do Departamento de Energia dos EUA indicam que a SPR armazenava cerca de 283,8 milhões de barris na semana passada, o menor volume desde outubro de 1982. A queda está relacionada a sucessivas liberações de petróleo realizadas neste ano para atender a compromissos de abastecimento e estabilização do mercado.
Petróleo venezuelano pode ser usado em troca
Apesar da intenção anunciada por Trump, a utilização direta do petróleo venezuelano na SPR apresenta uma dificuldade técnica. O petróleo produzido na Venezuela é, em grande parte, mais pesado e possui maior teor de enxofre do que o tipo armazenado atualmente na reserva americana.
Por esse motivo, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que uma alternativa seria realizar uma operação de troca: petróleo americano mais leve seria disponibilizado ao mercado, enquanto o petróleo pesado venezuelano poderia ser direcionado para outras finalidades. Dessa forma, os EUA conseguiriam ampliar os estoques estratégicos sem comprometer as especificações da reserva.
Acordos aproximam Washington e Caracas
A estratégia está relacionada à aproximação entre os governos dos Estados Unidos e da Venezuela. Em agosto, Trump anunciou um acordo voltado à recuperação da indústria petrolífera venezuelana. Segundo o Departamento de Energia americano, o entendimento prevê controle majoritário dos EUA sobre uma estimativa de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas e busca ampliar os investimentos no setor.
Nas semanas seguintes, empresas internacionais também anunciaram novos projetos no país. Chevron, Eni e outras companhias firmaram acordos para ampliar a produção e investir na infraestrutura energética venezuelana. A Chevron, por exemplo, anunciou planos de investir mais de US$ 7 bilhões para aumentar sua produção no país.
A recuperação, no entanto, depende de investimentos significativos e da reconstrução de parte da infraestrutura petrolífera. Por isso, especialistas e autoridades ainda consideram incerto o ritmo em que o aumento da produção venezuelana poderá gerar volumes adicionais para o mercado americano.
Exportações venezuelanas para os EUA aumentaram
Mesmo com a produção ainda limitada, os Estados Unidos já ampliaram as compras de petróleo venezuelano.
Em setembro, as exportações totais da Venezuela caíram quase 9%, para aproximadamente 1,08 milhão de barris por dia. No mesmo período, porém, os embarques destinados aos Estados Unidos aumentaram de cerca de 553 mil para 629 mil barris por dia. A produção venezuelana ficou próxima de 1,2 milhão de barris diários.
Os números mostram que o comércio de petróleo entre os dois países já vem crescendo, embora a Venezuela ainda enfrente limitações de produção, transporte e infraestrutura.
Reserva americana está no menor nível desde 1982
A recomposição da SPR ganhou importância após uma série de liberações realizadas ao longo de 2026. Em setembro, o Departamento de Energia anunciou uma nova operação de até 40 milhões de barris, dentro do compromisso americano de liberar 172 milhões de barris como parte de uma ação coordenada internacionalmente pela Agência Internacional de Energia (IEA).
Nesse modelo, o petróleo é emprestado a empresas, que posteriormente precisam devolver os volumes recebidos acrescidos de barris adicionais. O Departamento de Energia afirma que a operação permite atender necessidades imediatas do mercado e, ao mesmo tempo, aumentar gradualmente o estoque estratégico no futuro.
A SPR possui capacidade autorizada de armazenamento de até 714 milhões de barris e foi criada para reduzir os impactos de possíveis interrupções no fornecimento de petróleo.
O uso de petróleo venezuelano, portanto, aparece como uma das alternativas discutidas pelo governo Trump para recuperar os estoques americanos. A velocidade dessa recomposição dependerá, entre outros fatores, da capacidade da Venezuela de ampliar sua produção e da evolução dos acordos firmados entre os dois países.
*Da Agência Fonte Exclusiva
