Mais de quatro décadas após o início de Angra 3, o empreendimento continua consumindo recursos sem produzir energia.
Diante da pressão financeira sobre a Eletronuclear, o governo federal autorizou a abertura de negociações para tentar adiar temporariamente o pagamento das dívidas vinculadas à construção da usina nuclear.
O Conselho Nacional de Política Energética reconheceu, nesta terça-feira (14), o interesse público da solicitação apresentada pela companhia. A decisão permite que Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social avaliem formalmente uma possível suspensão das parcelas.
O reconhecimento do CNPE, entretanto, não significa que os pagamentos já tenham sido interrompidos. A resolução não altera os contratos de financiamento nem obriga os bancos a aceitar a proposta. A eventual pausa dependerá das análises técnicas, financeiras e jurídicas realizadas pelas duas instituições.
A Eletronuclear busca firmar um acordo conhecido como standstill. Esse mecanismo permite adiar o cumprimento de determinadas obrigações por um período definido, dando tempo para que a empresa reorganize suas contas ou aguarde decisões capazes de modificar sua situação financeira.
No caso de Angra 3, a intenção é reduzir a pressão sobre o caixa enquanto o governo decide se retomará as obras ou encerrará definitivamente o empreendimento.
Caso o pedido seja aprovado, a dívida não será perdoada. Os valores poderão ser incorporados ao saldo devedor, transferidos para parcelas futuras ou reorganizados conforme as condições negociadas com Caixa e BNDES.
A Eletronuclear desembolsa aproximadamente R$ 800 milhões por ano com o serviço das dívidas ligadas à usina. Além disso, precisa custear a conservação das estruturas e dos equipamentos já instalados, mesmo sem obter receita com a geração de eletricidade.
A manutenção é necessária para impedir a deterioração dos materiais e preservar a possibilidade de retomada. Somadas, as despesas financeiras e operacionais relacionadas ao projeto chegam a aproximadamente R$ 1 bilhão por ano.
Decisão sobre a usina continua pendente
A negociação das parcelas não resolve o principal impasse envolvendo Angra 3. O governo ainda precisa escolher entre concluir a unidade ou abandonar uma obra que atravessou diferentes administrações, crises econômicas e investigações sobre irregularidades.
A construção começou em 1984 e passou por sucessivas interrupções. As atividades foram retomadas em diferentes períodos, mas voltaram a ser paralisadas em 2015, em meio às apurações sobre contratos relacionados ao empreendimento.
A unidade integra a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis, onde já operam Angra 1 e Angra 2. Caso seja concluída, a terceira usina terá capacidade instalada aproximada de 1,4 gigawatt.
Cerca de 65% do projeto estaria executado, embora o percentual possa variar conforme os critérios utilizados para medir o avanço físico e financeiro.
As estimativas apresentadas ao governo indicam que seriam necessários aproximadamente R$ 24 bilhões adicionais para terminar a construção. O abandono, por outro lado, também teria custo elevado, calculado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.
O encerramento exigiria a desmobilização das estruturas, a destinação dos equipamentos adquiridos, o cumprimento de compromissos contratuais e a manutenção da segurança da área. Nesse cenário, o país assumiria novas despesas sem receber a energia prevista no planejamento original.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defende a conclusão de Angra 3. Para ele, abandonar o empreendimento representaria perder os recursos já investidos sem transformar a estrutura existente em capacidade de geração.
Silveira também sustenta que a energia nuclear pode reforçar a estabilidade do sistema elétrico. Diferentemente das fontes que dependem do nível dos reservatórios, da intensidade dos ventos ou da incidência solar, uma usina nuclear pode produzir continuamente durante longos períodos.
Os críticos do projeto, entretanto, questionam o custo final da obra, o preço futuro da energia e os riscos de novos atrasos. Também cobram uma comparação com alternativas que possam ser implantadas em menos tempo e com menor necessidade de recursos públicos.
O histórico de paralisações e investigações reforça ainda a necessidade de regras mais rigorosas de governança, fiscalização e acompanhamento dos contratos.
Controle da companhia permanece com a União
A estrutura societária da Eletronuclear foi modificada após a privatização da Eletrobras, concluída em 2022. Como determinadas atividades nucleares são monopólio da União, o controle da companhia precisou permanecer sob responsabilidade do Estado.
A participação controladora ficou com a Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional, a ENBPar, vinculada ao Ministério de Minas e Energia.
Em outubro de 2025, a Eletrobras vendeu por R$ 535 milhões a participação que ainda mantinha na Eletronuclear para a Âmbar Energia, empresa ligada ao grupo J&F.
A operação não retirou o comando da União. A ENBPar continuou com a maioria das ações com direito a voto e, consequentemente, com o poder sobre as decisões estratégicas relacionadas às usinas nucleares.
O futuro de Angra 3, portanto, permanece diretamente ligado às decisões do governo federal. Mesmo com a presença de um acionista privado, a definição sobre investimentos, financiamento e continuidade do projeto seguirá condicionada às políticas públicas para o setor nuclear.
Ao defender a expansão dessa fonte, Alexandre Silveira também destaca as reservas brasileiras de urânio e o conhecimento técnico acumulado pelo país.
O urânio é utilizado na fabricação do combustível nuclear. O Brasil possui reservas importantes do mineral, embora apenas parte do território tenha sido pesquisada de maneira detalhada.
A geração nuclear também é apresentada como uma alternativa de baixa emissão direta de gases de efeito estufa durante a operação. Em contrapartida, exige investimentos elevados, protocolos rigorosos de segurança e planejamento de longo prazo para o tratamento e o armazenamento dos rejeitos radioativos.
Negociação não encerra impasse financeiro
A resolução do CNPE oferece uma possibilidade de alívio temporário para as contas da Eletronuclear, mas não elimina as despesas relacionadas a Angra 3.
Mesmo que Caixa e BNDES aceitem adiar as parcelas, a empresa precisará continuar preservando equipamentos, instalações e equipes especializadas. Os valores suspensos também voltarão a ser cobrados conforme as condições definidas no acordo.
A negociação poderá conceder tempo ao governo, mas prolongar a indefinição também mantém custos elevados sobre uma usina que não gera eletricidade.
A decisão dos bancos será importante para o equilíbrio financeiro imediato da Eletronuclear. A resposta mais decisiva, porém, ainda caberá ao governo: investir os recursos necessários para concluir Angra 3 ou assumir os custos do encerramento definitivo de um projeto iniciado há mais de 40 anos.
*Da Agência Fonte Exclusiva
